Wednesday, 21 May 2014

A Beleza














































































Sophia de Mello Breyner Andresen





Era uma vez um rapaz que morava numa casa no campo. Era uma casa pequena e branca, com uma chaminé muito alta por onde saía o fumo da lareira, que no Inverno estava sempre acesa, e que servia para cozinhar e para aquecer a casa.

À roda da casa havia um pomar com árvores de fruto e, como as árvores eram de várias espécies, havia sempre fruta fresca durante quase todo o ano. No Inverno as árvores davam laranjas e tangerinas, na Primavera davam pêras e maçãs vermelhas, no Verão era a vez das ameixas, das cerejas e dos pêssegos, no fim do Verão e no Outono chegavam os figos e os marmelos e a parreira grande que dava sombra enchia-se de uvas. E, quando passava a estação própria de cada fruta, podia-se comer as compotas que a mãe do rapaz tinha feito e que guardava em tijelas de barro e boiões de vidro que davam sempre um cheiro perfumado a toda a casa.

Mas, além das árvores do pomar, o campo à roda da casa onde o rapaz vivia tinha também outras árvores, muito altas e grossas e que eram tão antigas que já estavam lá antes de a casa ter sido feita pelo avô do rapaz. O castanheiro dava castanhas, a nogueira dava nozes, mas, acima de tudo, as árvores grandes e antigas, como os dois carvalhos em frente de casa, davam sombra e pareciam guardar a casa e fazer companhia.

Junto ao ribeiro, que passava à frente do terreno, haviam faias, altas e esguias, e chorões, cuja copa densa caía até ao chão e debaixo das quais o rapaz brincava às cabanas com os amigos e com os dois irmãos mais novos.


Miguel Sousa Tavares
O Segredo do Rio
1996


The Rhythm of the Saints





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