Sunday, 11 May 2014

Desencantar o mundo





«Andar sempre à porrada é que é fixe!», insistia o Diogo, de 9 anos, ao mesmo tempo que fazia um desenho em que chamava a atenção para as suas capacidades físicas (figura 5):


«Não é a roupa que é larga. Eu gosto destas calças, assim à dread. Eu é que tenho muita força».
«Portar-me bem é que tem sido mais mal», explicava o Daniel, de 8 anos.
Toleram muito mal as frustrações e expressam as suas fortes dificuldades emocionais nos comportamentos agidos, instáveis, hiperactivos e frequentemente impregnados de conteúdos sexuais muito fragmentados e clivados dos afectos (figura 6). 



Com ar malandro, um menino de 8 anos perguntava assim à sua professora, a propósito do tema da aula: «Ó Professora, mas isso dos seres vivos... a pilinha também é um ser vivo?»
«Não é nada, não vês, ó...», dizia outro.
«É, é. Não sabes que ela às vezes mexe...», explicava outro ainda.
Dificilmente são contidos fisicamente, e para funcionarem no seu dia a dia exigem atenção muito individualizada e apoios múltiplos. Mesmo assim, denegam frequentemente a responsabilidade dos seus actos («está sempre a dizer que não foi ele... Que foi outro que começou...», descrevia uma professora) e expressam a sua enorme vulnerabilidade psíquica pela forma de um rudimentar sentido de autopreservação, colocando-se a si próprios e aos outros em risco.
Como o Pedro, que se pendurava no gradeamento do portão, e cuja mãe, ao ser alertada pela professora dizia:
«Deixe-o morrer. Se ele morresse era cá um alívio!»
Ou como o Rodrigo, já com 12 anos, que tinha um comportamento marcado pela constante agressão física, que nos falava assim:
«É o meu pai... Ele bebia muito, dava porrada na minha mãe e em mim... Por isso é que eu gosto de fazer ginástica. Para ter músculo. Assim, se ele alguma vez voltar a tentar bater-nos, sou eu que o mando para o hospital, não é ele que nos manda a nós.»
A capacidade de relação destas crianças é muito frágil e marcada por extremo, com grandes investimentos ou desinvestimentos que expressam a típica ambivalência entre a necessidade de dependência e o desejo de autonomia. Recordamos um menino que se recusava vir à consulta se não fosse o primeiro a ser chamado, embora nos primeiros momentos repetisse sempre:
«Só cá posso estar cinco minutos. Que horas são?»
Ou outra criança que, no corredor, não falava à sua psicóloga, mas que depois lhe enviava cartões escrevendo:
«Gosto muito de ti. Desculpa ter-me zangado contigo.»
São também crianças que raramente aprendem pela experiência. A colagem adesiva é como mais habitualmente o fazem. A capacidade de concentração é limitada. A riqueza associativa e simbólica do pensamento é muito pobre, e disso é tradução a limitação verbal e comunicativa que apresentam. O vocabulário é muito específico, cheio de expressões peculiares como bué, fixe, iá, um coche, uma beca, desbunda, altamente, curtir, ou népia.
Frágeis na organização do seu «eu», necessitam de vários auxiliares para funcionarem, como os rapazes do grupo, os cães de raças agressivas que dizem ter, ou as navalhas que transportam consigo, nos bolsos. Com uma estrutura de autocensura, o «super-eu», muito rarefeita, não reconhecem a autoridade em ninguém, não desenvolvem um sentido eficaz de culpa, logo, não possuem movimentos de reparação. Com um «ideal do eu» distorcido, querem invariavelmente ser «Figo», «ter um moto 900, eu tenho, a sério, tu é que nunca viste», que lhes dá um enorme desfasamento em relação à realidade (figura 7).



«É um miúdo a fumar um charro. Está a pensar numa seringa. É bacano.»
E noutro desenho, a mensagem (mal) escrita, tradução do desejo de vir a ser «Figo» (figura 8):



Ohje vou aus trainos de fotebol
Todos querem ser Figo, ou outros igualmente famosos, mas raros são os que imaginam que, para isso, é preciso treinar, aprender. E nem querem ouvir que esse grande futebolista português, começou a carreira num modesto clube, desconhecido de todos.

Por outro lado, sempre que confrontados com as suas próprias dificuldades e com um sistema de ensino pouco adaptado às suas necessidades emocionais, vêem-se na posição de aprender segundo programas muito afastados da realidade das suas vidas.
...

Vidas que são caminhos «para lado nenhum», como a estrada de um desenho feito por outra criança de 10 anos (figura 9).



Contudo, são também crianças e adolescentes que apresentam um outro lado muito funcionante, lembrando que nunca ninguém está completamente mal e que, quanto mais novo se é, maiores as possibilidades de reversão de dificuldades. É espantoso nestes miúdos a forma surpreendente como reagem tão fortemente a realidades de um peso adverso tão grande. Toca conhecê-los. São caras, expressões, frases, momentos que não se esquecem.
A estas crianças e adolescentes deu-se muito, mas delas também trouxemos muito; nesse aspecto, a melhor lição será sempre ouvir o que dizem as suas vozes. Ir até elas, conhecê-las, saber ouvi-las, com elas e sobre elas pensar e, depois agir para mudar. Percebe-se tudo. Ir até elas e voltar. Muda a ideia que temos sobre nós; muda a ideia que temos sobre os outros.

Pedro Strecht
À Margem do Amor – Notas sobre Delinquência Juvenil
2003
Assírio & Alvim
p. 62-67






Sophia de Mello Breyner Andresen e Teresa Calem, A Fada Oriana


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