«Andar sempre à porrada é que é fixe!»,
insistia o Diogo, de 9 anos, ao mesmo tempo que fazia um desenho em que chamava
a atenção para as suas capacidades físicas (figura 5):
«Não é a roupa que é larga. Eu gosto
destas calças, assim à dread. Eu é que tenho muita força».
«Portar-me bem é que tem sido mais
mal», explicava o Daniel, de 8 anos.
Toleram muito mal as frustrações e
expressam as suas fortes dificuldades emocionais nos comportamentos agidos,
instáveis, hiperactivos e frequentemente impregnados de conteúdos sexuais muito
fragmentados e clivados dos afectos (figura 6).
Com ar malandro, um menino de 8
anos perguntava assim à sua professora, a propósito do tema da aula: «Ó
Professora, mas isso dos seres vivos... a pilinha também é um ser vivo?»
«Não é nada, não vês, ó...», dizia
outro.
«É, é. Não sabes que ela às vezes
mexe...», explicava outro ainda.
Dificilmente são contidos fisicamente,
e para funcionarem no seu dia a dia exigem atenção muito individualizada e
apoios múltiplos. Mesmo assim, denegam frequentemente a responsabilidade dos
seus actos («está sempre a dizer que não foi ele... Que foi outro que
começou...», descrevia uma professora) e expressam a sua enorme vulnerabilidade
psíquica pela forma de um rudimentar sentido de autopreservação, colocando-se a
si próprios e aos outros em risco.
Como o Pedro, que se pendurava no
gradeamento do portão, e cuja mãe, ao ser alertada pela professora dizia:
«Deixe-o morrer. Se ele morresse era cá
um alívio!»
Ou como o Rodrigo, já com 12 anos, que
tinha um comportamento marcado pela constante agressão física, que nos falava
assim:
«É o meu pai... Ele bebia muito, dava
porrada na minha mãe e em mim... Por isso é que eu gosto de fazer ginástica.
Para ter músculo. Assim, se ele alguma vez voltar a tentar bater-nos, sou eu
que o mando para o hospital, não é ele que nos manda a nós.»
A capacidade de relação destas crianças
é muito frágil e marcada por extremo, com grandes investimentos ou
desinvestimentos que expressam a típica ambivalência entre a necessidade de
dependência e o desejo de autonomia. Recordamos um menino que se recusava vir à
consulta se não fosse o primeiro a ser chamado, embora nos primeiros momentos
repetisse sempre:
«Só cá posso estar cinco minutos. Que
horas são?»
Ou outra criança que, no corredor, não
falava à sua psicóloga, mas que depois lhe enviava cartões escrevendo:
«Gosto muito de ti. Desculpa ter-me
zangado contigo.»
São também crianças que raramente
aprendem pela experiência. A colagem adesiva é como mais habitualmente o fazem.
A capacidade de concentração é limitada. A riqueza associativa e simbólica do
pensamento é muito pobre, e disso é tradução a limitação verbal e comunicativa
que apresentam. O vocabulário é muito específico, cheio de expressões
peculiares como bué, fixe, iá, um coche, uma beca, desbunda, altamente, curtir,
ou népia.
Frágeis na organização do seu «eu»,
necessitam de vários auxiliares para funcionarem, como os rapazes do grupo, os
cães de raças agressivas que dizem ter, ou as navalhas que transportam consigo,
nos bolsos. Com uma estrutura de autocensura, o «super-eu», muito rarefeita,
não reconhecem a autoridade em ninguém, não desenvolvem um sentido eficaz de
culpa, logo, não possuem movimentos de reparação. Com um «ideal do eu»
distorcido, querem invariavelmente ser «Figo», «ter um moto 900, eu tenho, a
sério, tu é que nunca viste», que lhes dá um enorme desfasamento em relação à
realidade (figura 7).
«É um miúdo a fumar um charro. Está a
pensar numa seringa. É bacano.»
E noutro desenho, a mensagem (mal)
escrita, tradução do desejo de vir a ser «Figo» (figura 8):
Ohje vou aus trainos de fotebol
Todos querem ser Figo, ou outros
igualmente famosos, mas raros são os que imaginam que, para isso, é preciso
treinar, aprender. E nem querem ouvir que esse grande futebolista português,
começou a carreira num modesto clube, desconhecido de todos.
Por outro lado, sempre que confrontados
com as suas próprias dificuldades e com um sistema de ensino pouco adaptado às
suas necessidades emocionais, vêem-se na posição de aprender segundo programas
muito afastados da realidade das suas vidas.
...
Vidas que são caminhos «para lado
nenhum», como a estrada de um desenho feito por outra criança de 10 anos
(figura 9).
Contudo, são também crianças e
adolescentes que apresentam um outro lado muito funcionante, lembrando que
nunca ninguém está completamente mal e que, quanto mais novo se é, maiores as
possibilidades de reversão de dificuldades. É espantoso nestes miúdos a forma
surpreendente como reagem tão fortemente a realidades de um peso adverso tão
grande. Toca conhecê-los. São caras, expressões, frases, momentos que não se
esquecem.
A estas crianças e adolescentes deu-se
muito, mas delas também trouxemos muito; nesse aspecto, a melhor lição será
sempre ouvir o que dizem as suas vozes. Ir até elas, conhecê-las, saber
ouvi-las, com elas e sobre elas pensar e, depois agir para mudar. Percebe-se
tudo. Ir até elas e voltar. Muda a ideia que temos sobre nós; muda a ideia que temos sobre os outros.
Pedro Strecht
À Margem do Amor – Notas sobre
Delinquência Juvenil
2003
Assírio & Alvim
p. 62-67
Sophia de Mello Breyner Andresen e Teresa Calem, A Fada Oriana
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