Tuesday, 20 May 2014
Eça de Queiroz Realista
Longos anos o Ramalhete permanecera desabitado,
com teias de aranha pelas grades dos postigos térreos,
e cobrindo-se de tons de ruína.
Em 1858 monsenhor Buccarini, núncio de Sua Santidade,
visitara-o com ideia de instalar lá a Nunciatura,
seduzido pela gravidade clerical do edifício
e pela paz dormente do bairro:
e o interior do casarão agradara-lhe também,
com a sua disposição apalaçada, os tectos apainelados,
as paredes cobertas de frescos onde já desmaiavam as rosas
das grinaldas e as faces dos cupidinhos.
Mas Monsenhor, com os seus hábitos
de rico prelado romano, necessitava na sua vivenda
os arvoredos e as águas de um jardim de luxo
e o Ramalhete possuía apenas,
ao fundo de um terraço de tijolo,
um pobre quintal inculto, abandonado às ervas bravas,
com um cipreste, um cedro, uma cascatazinha seca,
um tanque entulhado, e uma estátua de mármore
(onde Monsenhor reconheceu logo Vénus Citereia)
enegrecendo a um canto na lenta humidade
das ramagens silvestres. Além disso,
a renda que pediu o velho Vilaça, procurador dos Maias,
pareceu tão exagerada a Monsenhor,
que lhe perguntou sorrindo se ainda julgava a Igreja
nos tempos de Leão X. Vilaça respondeu
- que também a nobreza não estava nos tempos do senhor D. João V. E o Ramalhete continuou desabitado.
O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garços... E o conde, que a admirava também, gabava-lhe sobretudo o espírito, a instrução. Isso, segundo o Ega, prejudicava-a: porque o dever da mulher era primeiro ser bela, e depois ser estúpida... O conde afirmou logo com exuberância que não gostava também de literatas; sim, decerto o lugar da mulher era junto do berço, não na biblioteca...
- No entanto é agradável que uma senhora possa conversar sobre coisas amenas, sobre o artigo de uma revista, sobre... Por exemplo, quando se publica um livro... Enfim, não direi quando se trata de um Guizot, ou de um Jules Simon... Mas, por exemplo, quando se trata de um Feuillet, de um... Enfim, uma senhora deve ser prendada. Não lhe parece, Neto?
Neto, grave, murmurou:
- Uma senhora, sobretudo quando ainda é nova, deve ter algumas prendas...
Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas literárias, sabendo dizer coisas sobre o sr. Thiers, ou sobre o sr. Zola, é um monstro, um fenómeno que cumpria recolher a uma companhia de cavalinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher só devia ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem.
- A sr.ª D. Maria também me parece hoje um pouco murcha.
- É do tempo. Eu já estou na idade em que o bom humor ou o aborrecimento vêm só das influências do tempo... Na sua idade vêm de outras coisas.
- Eu estou com vergonha... Mas se o sr. Carlos da Maia quisesse ter o incómodo de o vir ver num instante... É odioso, realmente, pedir-lhe logo depois de jantar para examinar um doente...
- Oh! Senhora Condessa! - exclamou ele, já de pé.
Seguiu-a. Numa saleta, ao lado, o conde e o sr. Sousa Neto, enterrados num sofá, conversavam fumando.
- Levo o sr. Carlos da Maia para ver o pequeno...
O conde erguera-se um pouco do sofá, sem compreender bem. Já ela passara. Carlos seguiu em silêncio a sua longa cauda de seda preta através do bilhar, deserto, com o gás aceso, ornado de quatro retratos de damas, da família dos Gouvarinhos, empoadas e sorumbáticas. Ao lado, por trás de um pesado reposteiro de fazenda verde, era um gabinete, com uma velha poltrona, alguns livros numa estante envidraçada, e uma escrivaninha onde pousava um candeeiro sob o abat-jour de renda cor-de-rosa. E aí, bruscamente, ela parou, atirou os braços ao pescoço de Carlos, os seus lábios prenderam-se aos dele num beijo sôfrego, penetrante, completo, findando num soluço de desmaio... Ele sentia aquele lindo corpo estremecer, escorregar-lhe entre os braços, sobre os joelhos sem força.
- Amanhã, em casa da titi, às onze - murmurou ela quando pôde falar.
- Pois sim.
Desprendida dele, a condessa ficou um momento com as mãos sobre os olhos, deixando desvanecer aquela lânguida vertigem que a fizera cor de cera. Depois, cansada e sorrindo:
- Que doida que sou... Vamos ver Charlie.
O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. E aí, numa caminha de ferro, junto ao leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco, com um bracinho caído para o lado, os seus lindos caracóis loiros espalhados no travesseiro como uma auréola de anjo. Carlos tocou-lhe apenas no pulso; e a criada escocesa, que trouxera uma luz de sobre a cómoda, disse, sorrindo tranquilamente:
- O menino nestes últimos dias tem andado muitíssimo bem...
Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa, já com a mão no reposteiro, estendeu ainda a Carlos os seus lábios insaciáveis. Ele colheu um rápido beijo. E, ao passar na antecâmara, onde Sousa Neto e o conde continuavam enfronhados numa conversa grave, ela disse ao marido:
- O pequeno está a dormir... O sr. Carlos da Maia achou-o bem.
O conde de Gouvarinho bateu no ombro de Carlos, carinhosamente.
https://www.youtube.com/watch?v=IVqpcSqokkw
Titanic - 1912
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