Wednesday, 7 May 2014

Quebrar

































































Antes de se enamorar,
que relação havia entre o indivíduo e a sua família,
a sua classe, a sua igreja, o seu cônjuge,
o seu grupo étnico ou linguístico, isto é,
com aquilo que será quebrado pelo enamoramento?
Não podemos supor que num primeiro tempo 
haja uma relação agradável, ou pelo menos aceitável,
julgada normal, legítima.
Certamente, em todas as relações humanas, 
de qualquer tipo que sejam,
há sempre uma margem mais ou menos ampla de insatisfação,
de desilusão, há sempre ambivalência.
A criança ama o pai, a mãe, os irmãos 
e ama também a família como uma unidade.
A família é um objecto colectivo de amor,
mas é também um lugar de tensões e de frustrações,
de ressentimento e de agressividade, quer dizer, ambivalente.
Freud pôs a ambivalência na base da sua psicologia: 
o complexo de Édipo é a manifestação da ambivalência 
em relação ao pai e à mãe amados, é certo,
mas também odiados. Porém, este rancor e este ódio 
não se manifestam abertamente e, ainda que haja ambivalência,
a imagem do pai, da mãe, da família, é positiva.
E isto acontece porque há em nós o desejo
(provavelmente devia dizer-se a necessidade)
de conservar o mais possível puro,
incontaminado (não ambivalente),
o nosso objecto de amor.
A imagem que o adulto tem da mãe, do pai, da Igreja,
do partido é o mais possível perfeita,
e ele faz tudo para conservá-la aos seus olhos.
Para o conseguir aprende, por um lado,
a tomar a agressividade sobre si,
a elaborá-la como sentimento de culpa (depressão) e,
por outro, a explicar a imperfeição que vê atribuindo-a
a um inimigo. O pai é colérico porque trabalha muito,
a pátria ou o partido ou a Igreja são imperfeitos porque
no exterior ou no interior existem inimigos,
pessoas más (elaboração persecutória).
Graças a esta elaboração, o objecto de amor
conserva o mais possível 
as características de um objecto de amor ideal,
estado que consideramos normal.
Todavia, quando à nossa volta as coisas se alteram,
quando mudamos nós próprios
(por exemplo na adolescência),
quando encontramos outras possibilidades,
outras realidades, 
quando as relações com os nossos objectos de amor pioram,
então é sempre mais difícil conservar esta imagem ideal
através da depressão e da projecção.
Em todos os períodos históricos que precedem um movimento,
em todas as histórias pessoais que antecedem um enamoramento,
há sempre uma longa preparação devida a uma mutação,
a um lento deteriorar das relações com as coisas amadas.
Neste período, os dois velhos mecanismos,
o depressivo e o persecutório,
continuam a funcionar:
nós protegemos o nosso ideal com toda a nossa força,
escondendo o problema. A consequência é que
o movimento colectivo (o enamoramento) 
desfere o golpe sempre de improviso.
Era tão gentil, tão afetuosa, 
diz o marido (ou a mulher) abandonado, era tão feliz comigo.
Na realidade, ela estava já à procura de uma alternativa,
mas repelia-a obsessivamente. Esforçava-se conscientemente
por continuar a amar o seu marido, 
fazia todos os esforços por considerá-lo ainda perfeito,
amável, mas para o conseguir torna-se cada vez mais 
deprimida e taciturna.
Devia tomar sobre si cada vez mais agressividade,
com um contínuo e crescente autosacrifício.
O ideal - o deus - 
só se revela capaz de viver alimentado
por sacrifícios crescentes.


Francesco Alberoni
Innamoramento e Amore
1979
tradução de Armandina Puga
Bertrand Editora (pp. 30-32)



https://www.youtube.com/watch?v=1WQ1FT4h6Ko
The Fighter

https://www.youtube.com/watch?v=Jp0DUQ8jZ0A
Seven Pounds






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