Sentido da miséria e estreiteza da casa paterna,
deslumbrado, não menos, pelo exemplo de muitos
que chegavam do Oriente a estoirar de ricos,
também eu me embarquei para a Índia a tentar a sorte.
Foi no ano em que se recebeu em Lisboa
com pompa nunca vista, salvo enterro de rei,
a ossada do conde almirante D. Vasco da Gama.
Mal cheguei a Diu,
após venturosa se bem que longa travessia,
alistei-me numa fusta, pequena nau de guerra
que tinha por missão secreta ir ao Mar Vermelho
espreitar os movimentos do Turco.
Corremos o estreito de Meca
e deitámos até a terra do Preste João,
sempre com ventos prósperos.
À volta, porém, abandonou-nos a fortuna.
Por minha parte fui cativo dos Moiros,
posto em hasta pública, comprado por um grego
sem alma nem lei que me vendeu a um judeu,
o qual me levou a Ormuz, onde fui resgatado com o produto
de esmolas tiradas de porta em porta.
Estava na força da vida,
não houve mal que me dobrasse.
Tempos depois, via-me na corte de Bata
como embaixador do capitão de Malaca; semanas adiante,
o rei de Àru dava-me agasalho em sua casa
e com ele passava revista às suas obras de guerra.
Aqui me demorei mais tempo do que era minha intenção.
Cumprido, porém, o meu recado, que era trazer-lhe armas,
pois andava de guerra acesa com o rei de Achém,
nosso figadal inimigo, me despedi o mais cedo que pude.
...
Cuspidos à costa, veio a manhã encontrar-nos
de cima de uns penedos, batendo o dente
e chorando a nossa desventura. A terra ela alagadiça
e, coisa de pasmar, com mato tão soberbo e cheio de espinhos
que, através dele, não passava pássaro quanto mais homem.
E não houve remédio senão quedar nos recifes,
onde levámos três dias, de cócoras, sem outro comer
além dos limos que vinham na babugem do mar.
Ao cabo desse tempo,
como não víssemos outro meio de salvação nos metemos
pela orla da ilha fora, com vasa até a cinta,
detendo-nos diante de uma ribeira que,
por ser muito funda e estarmos muito cansados,
não nos atrevemos a passar naquele dia.
Ali pernoitámos dentro de água,
só com a cabeça de fora,
tão mordidos de mosquitos e moscardos
que parecíamos uns lázaros.
Neste ponto nos faleceu um homem que enterrámos
como Deus foi servido.
Da outra banda da ribeira viam-se árvores altas e grandes,
nas pernadas das quais, se lá nos apanhássemos,
poderíamos dormir a noite descansada,
a salvo de tigres e caimões que infestam a ilha,
sem falar doutras alimárias como a cobra de capelo
e certas serpentes, tão peçonhentas que só com o bafo
matam.
Fernão Mendes Pinto
Peregrinação
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fern%C3%A3o_Mendes_Pinto
https://www.youtube.com/watch?v=FFMot1B6NxQ
Tomas Luis de Victoria
https://www.youtube.com/watch?v=bkIDNnZ9pMk
Morten Lauridsen
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