ESTOU CANSADO
Estou cansado, é claro,
Porque a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado não sei.
De nada me serviria sabel-o
Pois o cansaço ficaria na mesma,
A ferida doe como doe
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto -
Uma vontade de somno no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma tranquilidade lucida
Do entendimento retrospecttivo...
E a luxuria muda de não ter já esperanças?
Sou intelligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E ha um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
O SOMNO
O somno que desce sobre mim,
O somno mental que desce physicamente sobre mim,
O somno universal que desce individualmente sobre mim -
Este somno
Parecerá aos outros o somno de dormir,
O somno da vontade de dormir,
O somno de ser somno.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o somno da somma de todas as desillusões,
É o somno da synthese de todas as desesperanças,
É o somno de haver mundo commigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.
O somno que desce sobre mim
É comtudo como todos os somnos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos socego,
A rendição é ao menos o fim do exforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.
Ha um som de abrir uma janella,
Viro indifferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o hombro que a sente,
Olho pela janella entraberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azues à procura de alguem.
De quem?,
Pergunta a minha indifferença.
E tudo isso é somno.
Meu Deus, tanto somno!...
Álvaro de Campos
(engenheiro naval licenciado em Glasgow, 175 cm, magro,
ligeiramente marreco)
Streets of London
Master and Servant
I Don't
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