https://www.youtube.com/watch?v=KyMz9VeEnuI
Zambezia
https://www.youtube.com/watch?v=QfBSncUspBk
Children of Men
Nessa altura, com a idade de onze anos,
o Pai Natal era para mim um pouco como Deus
- via tudo e sabia tudo -
mas sem as coisas terríveis que Deus permite que aconteçam:
tremores de terra, fomes, acidentes de viação.
Ficava na cama, debaixo dos cobertores
(quão grosseira soa a palavra cobertor nos dias de hoje,
quando estamos familiarizados com a vulgarização
dos edredões Tog),
com o coração aos pulos e as palmas das mãos suadas
na expectativa do álbum Beano novinho em folha.
Imaginava esse grande folgazão do Pai Natal
a olhar para o nosso beco lá do seu trenó celestial
e a dizer para as suas renas:
«Dêem qualquer coisa decente ao Adrian Mole este ano.
Ele é bom rapaz.
Nunca se esquece de baixar a tampa da sanita.»
Ah... a ingenuidade das crianças!
Infelizmente agora, na maturidade
(dezasseis anos, oito meses e vinte e dois dias,
cinco horas e seis minutos)...
sei que os meus pais andam às voltas no centro da cidade
com o olhar desvairado pelo pânico dos consumidores,
repetindo desesperadamente:
«Que havemos de levar para o Adrian?»
Será de admirar que a Noite de Natal
tenha perdido o seu encanto?
2.15 h da madrugada. Acabo de chegar da missa do Galo. Como de costume arrastou-se demasiado.
A minha mãe começou a ficar impaciente
depois da primeira hora de canções
pela Cooperativa das Jovens Esposas.
Não parava de sussurrar:
«Não tarda tenho que ir para casa, senão a porcaria do peru
não vai descongelar até amanhã de manhã.»
Mais uma vez a peça de Natal foi animada
pela presença de um burro em carne e osso na igreja.
Nunca se comporta e causa sempre um enorme rebuliço;
porque será então que o vigário nos impõe que o aturemos?
OK, o cunhado dirige uma reserva de burros,
mas o que é que isso tem?
Para falar com justiça,
o efeito da missa do Galo foi muitíssimo comovente.
Até mesmo para mim,
que sou um existencialista niilista militante.
Sue Townsend
As Confissões de Adrian Mole & C.ª
1989
https://www.youtube.com/watch?v=qKsS1JxZJJc
Gallo porquê? porquê?
I Love The Way You Lie
Who You Are
Beautiful Mess Inside
Acordei de madrugada com o som do ferrugento Ford Escort
do avô Sugden recusando-se a pegar.
Reconheço que devia ter ido à rua e ajudado a empurrar,
mas a avó Sugden parecia estar a desenvencilhar-se bem sozinha.
Deve ser por causa de todos estes anos a atirar com sacas de batatas para um lado e para outro.
Os meus pais, sensatamente, faziam de conta que estavam a dormir,
mas eu sei que estavam acordados,
porque ouvi as gargalhadas roucas vindas do quarto deles,
e quando o motor dos Sugdens voltou à vida
e o Escort dobrou finalmente a esquina do nosso beco,
ouvi distintamente o som de uma rolha de champagne
a saltar e o tilintar de copos. Para não falar dos sonoros «Viva!»
Voltei a adormecer, mas o cão acordou-me
com lambidelas às 9.30 h e levei-o a passear
até junto da casa de Pandora.
O Volvo do pai dela não estava no quintal,
portanto eles ainda devem estar em casa dos parentes ricos.
No caminho, passei pelo Barry Kent
que estava a chutar uma bola de futebol
de encontro à parede do lar da terceira idade.
Death
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