Wednesday, 11 June 2014

Os efeitos da palavra




Se contarmos às crianças muito pequeninas 
a sua história verdadeira, curamo-las.
Tenho como prova as crianças muito pequeninas, 
as crianças da Assistência Pública, que vêm a Trousseau, crianças do centro de adopção, que são abandonadas: 
o pouco que se sabe da história delas, 
e sobretudo o facto do seu abandono, 
o facto de que viram em tal data, pela última vez, a mãe, 
pela última vez o pai, 
é-lhes dito, 
repondo-as no conjunto das palavras que recobrem o espaço,
o lugar, a estação, a época, 
tudo o que pode ser verdade no que lhes é dito.

E essa criança que recusa comer, 
que está enroscada sobre si própria e quer morrer, reencontra o olhar que mergulha no seu olhar 
enquanto lhe está a falar do desejo que ela tem de morrer.

Françoise Dolto
Les Étapes Majeures de l'Enfance
1994


https://www.youtube.com/watch?v=VAJ_xXvBm14
Depois dos 3 anos, não devem estar sempre com a mãe; a frustração da ausência
abre espaço ao seu mundo interior ou mundo espiritual, um mundo invisível
"escavado" pela dor (visível), e preenchido pelo encontro com os outros que têm a mesma
angústia e que com a ajuda e a referência das pessoas adultas que estão consigo,
as leva a encarar o mundo como um lugar de entreajuda - num lugar de comunicação de desejos e de satisfação de desejos.


De pais para filhos

Agora que em todos os silêncios te escuto
sobre mim caem dúvidas, nascem perguntas
com um só desejo central, único
será que cumpri? será que o amor se revelou?
por ti, meu filho, faria em cada instante
o melhor que soubesse, tudo quanto tivesse aprendido
do que na vida chamamos experiência.

E agora, quando te deixo à porta da escola
e te vejo partir, vais ligeiro e já não voltas
sei que há um bocado do mundo só teu
que abres e aí já não entro, digo-te
faz dele a tua parte, goza-a, expande-a
como gostares, mas que faças amigos
que seja bom e que passe depressa.

É que quando falamos percebo o que dizes
e faço para mim a legenda do que não contas
pois nada disso é difícil, basta saber ler
em ti, nos teus olhos, num sorriso,
nos movimentos que fazes, ora lentos,
suaves, ora rápidos, bruscos, tensos
que é tão simples escrever alegria ou tristeza.

Depois, à noite, velo por ti
quando as luzes se apagam e se faz escuro
e todos os medos, os monstros, te assustam
como se fosse verdade e ali estivessem
para te inquietar, mas não, crescer é isso
lutar, fazer dos fracos fortes e sonhar
em cada noite como em cada recomeço.

É por isso que digo, meu amor
que valeu a pena, vale sempre
já se sabe, mesmo quando falhamos ou
não estivemos presentes para dizer sim
ou ajudar a curar uma dor, um desamparo
qualquer tristeza que atormentou
o brilho que cada dia traz, um após outro.

Porque a vida, a tua vida
é também a minha, e com ela
por ela, tudo se revisita, tudo se constrói
como peças sobrepostas a outras
em castelos que erguemos em fantasias
histórias que desejamos escrever com finais
de e foram felizes para sempre.

Pedro Strecht
Quero-te muito - crónicas para pais sobre filhos
2004


https://www.youtube.com/watch?v=YcY3FH208l8
I Wish It Would Rain Down



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