bebé de 9 meses
por António Damásio
2010
Não é possível explicar cabalmente a subjectividade sem saber algo mais acerca da origem dos sentimentos e reconhecer a existência de sentimentos primordiais, expressões espontâneas do estado do corpo vivo. Em teoria, os sentimentos primordiais resultam exclusivamente do corpo vivo e precedem toda a interacção entre a maquinaria da regulação vital e qualquer objecto. Os sentimentos primordiais baseiam-se no funcionamento dos núcleos do tronco cerebral superior, parte integrante da maquinaria de regulação vital. Os sentimentos primordiais são os antecedentes de todos os outros sentimentos.
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A ligação que estabelecemos entre os nossos estados corporais e o significado que assumiram para nós pode ser transferida para os estados corporais simulados dos outros, momento a partir do qual podemos atribuir um significado comparável à simulação. A gama de fenómenos relacionados com o conceito de empatia deve muito a esta disposição.
A origem de uma ideia
Descortinei a possibilidade atrás descrita há muitos anos, durante um episódio estranho e memorável. Certa tarde de Verão, quando trabalhava no laboratório, levantara-me da cadeira e percorria o meu gabinete quando de repente pensei no meu colega B. Não tinha qualquer motivo especial para pensar nele - não o vira recentemente, não precisava de falar com ele, não lera nada sobre ele, não tencionava de todo encontrar-me com ele - e, no entanto, ele ali estava, presente nos meus pensamentos, alvo da minha inteira atenção. Pensamos constantemente em outras pessoas, mas este caso era diferente, pois a presença era inesperada e exigia uma explicação. Porque estaria eu naquele momento a pensar no Dr. B?
Quase de imediato, uma rápida sequência de imagens disse-me o que precisava de saber. Revi mentalmente os meus movimentos e apercebi-me de que me movera, apenas por uns instantes, de um modo igual ao do meu colega B. Tinha a ver com a forma como balouçara os braços e arqueara as pernas. Tendo descoberto o que me obrigara a pensar nele, consegui visualizar perfeitamente o seu modo de andar. Todavia, o mais interessante era que as imagens visuais que formara haviam sido sugeridas, ou melhor, moldadas pela imagem dos meus próprios músculos e ossos a adoptarem os padrões característicos de movimento do meu colega B. Em resumo: acabara de andar como o Dr. B; representara na mente a minha estrutura esquelética animada (tecnicamente, criara uma imagem somatossensorial); e, por fim, recordara uma réplica visual apropriada para essa imagem músculo-esquelética específica, que se revelou ser a do meu colega.
https://www.youtube.com/watch?v=ZC9Rr4QLf58
a minha professora de dança 01:20
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