Como el-rei quisera meter um bispo a tormento porque dormia com uma mulher casada
Não somente usava el-rei de justiça contra aqueles com quem era razão de o fazer, como leigos e semelhantes pessoas, mas ainda o seu coração ardia com tal desejo de castigar os maus que não respeitava a jurisdição própria dos clérigos, tanto de ordens menores como maiores. E, se lhe pediam que mandasse entregar o clérigo ao seu vigário, respondia que o pusessem na forca, e assim seria entregue a Jesus Cristo, que era o seu vigário, para que dele fizesse direito no outro mundo. Ele próprio por sua mão os queria punir e pôr a tormento, como quisera fazer a um bispo do Porto da maneira que vos contaremos.
Foi certo - e não ponhais nisso dúvida - que el-rei, partindo de Entre Douro e Minho para ir à cidade do Porto, foi informado de que o bispo desse lugar, que então tinha grande fama de fazenda e honra, dormia com uma mulher de um cidadão dos bons que havia na dita cidade, e que este não se atrevia a protestar com medo de ameaças de morte que o bispo lhe fazia.
El-rei, quando isto ouviu, querendo saber como era, não via o dia em que estaria com ele, para lho perguntar. E logo sem demora, depois que chegou ao lugar e comeu, mandou dizer ao bispo que fosse ao paço, que precisava dele para cousas do seu serviço. Antes que chegasse o bispo, falou com os seus porteiros para que, depois que ele entrasse na câmara, pusessem toda a gente fora do paço, tanto os do bispo como quaisquer outros, mesmo que fossem alguns do Conselho, e lhes dissessem que voltassem para casa porque ele tinha de fazer uma cousa a que não queria que estivessem presentes.
O bispo, quando veio, entrou na sala onde estava el-rei, e os porteiros fizeram sair todos os seus, de maneira que o paço ficou deserto. El-rei, logo que se viu a sós com o bispo, desvestiu-se e ficou só com uma saia de escarlata. Por sua mão tirou ao bispo todas as suas vestes e começou a intimar-lhe que lhe confessasse a verdade naquele malefício de que era culpado. E dizendo isto tinha na mão um grande açoite para lhe bater.
Os criados do bispo, quando ao princípio viram que os punham fora, assim como os outros todos e que ninguém se atrevia a ir lá, sabendo o que o bispo fazia, e juntando a isto a condição de el-rei e a maneira que em tais casos tinha, logo suspeitaram que el-rei lhe queria jogar algum mau jogo. E foram-se à pressa ao conde velho, e ao mestre de Cristo, D. Nuno Freire, e a outros privados do seu Conselho, para que acudissem sem demora ao bispo.
Vieram eles imediatamente a el-rei, mas não ousariam entrar na sala, pela defesa que este pusera, se não fosse Gonçalo Vasques de Góis, seu escrivão da puridade, que disse que queria entrar para lhe mostrar cartas que tinham chegado de el-rei de Castela com grande pressa. Por tal azo e fingimento conseguiram entrada e acharam el-rei com o bispo em razões, da maneira que dissemos. Como não lho podiam já tirar das mãos, começaram a dizer que fosse sua mercê não pôr a mão nele, porque com isso, não lhe guardando sua jurisdição, irritaria o Papa, tanto mais que o seu povo lhe chamava algoz, que por sua própria mão justiçava os homens, cousa que não lhe era própria, por muito malfeitores que fossem.
Com estas e outras tais razões arrefeceu em el-rei a sua brava sanha e o bispo se partiu de ante ele com semblante triste e turvado coração.
Fernão Lopes
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Jesus ou Barrabás
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Sweet Dreams
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