Tuesday, 14 October 2014

Adoptar o Movimento de Outrem





por António Damásio
2010


Logo que a identidade do intruso se revelou, descortinei igualmente algo de curioso acerca do cérebro humano: podia adoptar o movimento característico de outrem por puro acaso. (Ou quase: numa recordação posterior lembrei-me de ter visto B passar à janela do meu gabinete nesse dia. Tinha processado isso com pouca ou nenhuma atenção, de uma forma em grande medida não-consciente.) Podia transformar o movimento representado numa imagem visual equivalente; e podia obter através da memória a identidade de uma pessoa ou pessoas que correspondessem à descrição. Tudo isso era prova das interligações estreitas entre um movimento real do corpo, as representações desse movimento em termos músculo-esqueléticos e visuais, e as recordações que podem ser evocadas quanto a algum aspecto dessas representações.

Enriquecido por outras observações e reflexão adicional, este episódio fez-me perceber como a nossa ligação aos outros ocorre não só através de imagens visuais, linguagem e inferência lógica mas também através de algo mais profundo no nosso corpo: as acções com que podemos representar os movimentos dos outros. Podemos executar traduções entre 1) o movimento real, 2) as representações somatossensoriais do movimento, 3) as representações visuais do movimento e 4) a memória. 

...

É claro que os bons actores se servem destes dispositivos regularmente, de forma consciente ou não. O modo como alguns dos melhores fazem aparecer determinadas personalidades nas suas composições assenta neste poder de representação dos outros, de forma visual ou auditiva, ganhando depois vida no corpo do actor.

https://www.youtube.com/watch?v=WYdm3NB1Eo0
Morgan Freeman

É exactamente isso que significa «viver» um papel, e quando esse processo de transferência é enriquecido com pormenores fantasiados e inesperados, obtemos um desempenho de génio.

https://www.youtube.com/watch?v=4Spy3Nd2D6w
Madonna


https://www.youtube.com/watch?v=2eA5cWXIoA8
Rosa Mota




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