Friday, 17 October 2014

um lar descontraído, eu


































































































Dar a Palavra aos Sentimentos

por António Damásio, 2003

Os sentimentos de dor ou prazer são os alicerces da mente.
É fácil não dar conta desta simples realidade 
porque as imagens dos objectos e dos acontecimentos que nos rodeiam,
bem como as imagens das palavras e frases que os descrevem,
ocupam toda a nossa modesta atenção, ou quase toda.
Mas é assim. Os sentimentos de prazer, ou de dor,
ou de toda e qualquer qualidade entre dor e prazer,
os sentimentos de toda e qualquer emoção 
ou dos diversos estados que se relacionam com uma qualquer emoção, 
são a mais universal das melodias, 
uma canção que só descansa quando chega o sono, 
e que se torna num verdadeiro hino 
quando a alegria nos ocupa 
ou se desfaz em lúgubre requiem quando a tristeza invade.

       (tradutor - Ersílio Cardoso)


...

Estou certo de que os meus anfitriões não deram pela minha falta; Deus sabe que eu não senti a deles.

Mas não era uma alegria ser ali abandonado numa noite fria e ventosa. Comecei a caminhar, na esperança de encontrar uma estrada principal, mas fi-lo durante meia hora sem avistar uma única habitação. Foi então que, mesmo ao lado da estrada, vi uma pequena casa desmontável, com um alpendre e uma janela iluminada por um candeeiro. Caminhei em bicos de pés para o alpendre e espreitei pela janela; uma mulher de meia-idade, com uma bela cabeleira branca e um rosto redondo e simpático, estava sentada junto à lareira a ler um livro. Tinha um gato enroscado no colo e vários outros dormitavam aos seus pés.

Bati à porta e, quando ela veio abrir, murmurei, batendo os dentes:

- Peço desculpa de a incomodar, minha senhora, mas tive uma espécie de desastre. Poderia servir-me do seu telefone para chamar um táxi?
- Oh, céus! - exclamou ela, sorrindo - Eu não tenho telefone. Sou muito pobre para isso. Mas entre, faça favor.

Enquanto eu entrava para a salinha confortável, ela acrescentou:

- Meu Deus, o senhor está gelado. Quer café? Uma chávena de chá? Tenho um pouco de uísque que o meu marido deixou... ele morreu há seis anos.

Respondi que um pouco de uísque viria a matar.

Enquanto ela foi buscá-lo, aqueci as mãos ao lume e deitei um olhar em roda da sala. Era um aposento acolhedor, ocupado por seis ou sete gatos de diferentes cores, de gatos vadios. Olhei para o título do livro que a senhora Kelly - pois soube depois ser esse o seu nome - estava a ler quando a interrompi: Emma, de Jane Austen, uma das minhas escritoras favoritas.

A senhora Kelly voltou, com um copo com gelo e uma garrafa de Bourbon, dirigindo-se a mim:

- Sente-se, sente-se. Não é todos os dias que tenho companhia. Claro que tenho os meus gatos... De qualquer modo, quer passar cá a noite? Tenho um bom quarto de hóspedes, que está há tanto tempo à espera de um hóspede! De manhã pode ir a pé até à estrada e apanhar a carreira para a cidade, onde encontra uma oficina para lhe arranjar o carro. São umas cinco milhas.

Perguntei-me, em voz alta, como podia ela viver tão isolada, sem transporte e sem telefone; disse-me que o seu bom amigo, o carteiro, se ocupava de todas as suas compras.

- O Alberto. É realmente tão bom homem! Tão prestável! Mas vai aposentar-se para o ano. Depois disso, não sei como vou fazer. Mas alguma coisa se há-de arranjar. Talvez o novo carteiro. Mas, diga-me, como foi o desastre que teve?

Quando lhe expliquei a verdade do que se passara, ela respondeu, indignada:

- O senhor fez exactamente o que devia fazer. Eu não punha os pés no carro de um homem que tivesse cheirado um cálice de Xerez. Foi assim que eu perdi o meu marido. Casada quarenta anos, quarenta anos de felicidade, e perdi-o por causa de um motorista bêbado que o atropelou. Se não fossem os meus gatos... - e afagou o gato malhado que lhe ronronava no colo.

Conversámos junto à lareira até as pálpebras me pesarem. Falámos de Jane Austen:

- Ah, Jane! A minha tragédia é que li tantas vezes os livros dela, que os sei de cor - e de outros autores admirados: Thoreau, Willa Carther, Dickens, Carroll, Maupassant, Agatha Christie, Raymond Chandler, Hawthorne, Chekhov -era uma mulher interessada, de espírito aberto; a inteligência iluminava-lhe os olhos de cor de avelã como o pequeno candeeiro que brilhava ao lado dela, em cima da mesa. Falámos dos Invernos ásperos de Connecticut, de políticos, de terras distantes.

- Nunca fui ao estrangeiro, mas se alguma vez pudesse, o sítio onde eu gostava de ir era a África. Algumas vezes sonhei com ela, com o calor, as belas girafas, os elefantes... 

Conversámos também sobre religião.

- Claro, fui educada no catolicismo, mas agora, quase me custa a dizer, tenho o espírito aberto. Leituras a mais, talvez... A jardinagem foi também tema de conversa:

- Eu cultivo e conservo todos os meus legumes; é uma necessidade.

Por fim exclamou:
- Desculpe toda a minha tagarelice. Não imagina o prazer que me dá. Mas são mais que horas de o senhor se deitar; e eu também.

Acompanhou-me ao andar de cima e, depois de eu estar confortavelmente instalado numa cama de casal, debaixo de uma abençoada porção de lindas mantas de retalhos, voltou para me dar as boas-noites, desejar-me sonhos felizes.

Fiquei acordado a pensar em tudo isto. Que experiência excepcional: ser velha, viver sozinha neste deserto, bater-lhe um desconhecido à porta a meio da noite e não só abrir-lha, mas recebê-lo cordialmente e oferecer-lhe agasalho. Se as nossas situações se invertessem, tenho muitas dúvidas sobre se teria tido essa coragem para não falar na generosidade.

Na manhã seguinte deu-me o pequeno-almoço na cozinha. Café e flocos de aveia quentes com açúcar e natas de conserva, mas eu tinha fome e soube-me muito bem. A cozinha era mais pobre que o resto da casa; o fogão, um frigorífico barulhento, tudo parecia às portas da morte. Tudo, excepto um objecto moderno, uma arca congeladora encaixada num canto. Ela continuava a tagarelar:

- Adoro pássaros. Sinto tantos remorsos por não lhes atirar migalhas no Inverno! Mas não posso deixá-los juntar à roda da casa. Por causa dos gatos: gosta de gatos?
- Gosto. Tive em tempos um siamês chamado Toma. Morreu aos doze anos e viajámos juntos por toda a parte. Por todo o mundo. Quando ele morreu, nunca mais tive coragem de arranjar outro.
- Então pode compreender isto - disse ela, levando-me até à arca e abrindo-a. Lá dentro só havia gatos: pilhas de gatos congelados, perfeitamente conservados. Dúzias deles. Tive uma estranha sensação.
- Todos os meus velhos amigos. Estão em descanso. É que me seria insuportável perdê-los. Completamente. - Riu-se e acrescentou: - Devo parecer-lhe um pouco tonta.

«Um pouco tonta! Sim, um pouco tonta», pensava eu, enquanto caminhava sob um céu cinzento em direcção à estrada que ela me tinha indicado. Mas radiante: um candeeiro à janela.



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