Preâmbulo
Os percursos
psicoterapêuticos que inspiram as histórias que descrevo foram usados com o
conhecimento e a anuência das pessoas aqui retratadas.
...
Como é
evidente, todos os dados destas 18 pessoas de que falo foram suficientemente
alterados, e os textos, na sua maioria e sempre que possível, submetidos à
leitura de cada um, de modo a respeitar ao máximo a privacidade destes meus
queridos colaboradores.
Dedicatória
Dedico este
livro à minha mãe e também a todos aqueles que me têm procurado e procuram para
encontrarem dentro deles o melhor de si.
7
«Um flirt com a angústia»
«A música da saúde»
Ó Paulo!
Como foi bom tê-lo tido como um dos meus primeiros pacientes.
Quase da
minha idade, quantas vezes me revia em si, apesar de termos «papéis» diferentes
e específicos nesta circunstância em que o destino nos cruzou.
Tenho
pensado muitas vezes – e dito algumas – que me recuso a que os «papéis» que
cruzam as pessoas sejam mais importantes do que o encontro de duas humanidades.
De facto, sejam quais forem as circunstâncias, não há dúvida nenhuma de que com
biliões de seres humanos para a frente e para trás, com tantos países e
multidões no mundo, se há um momento em que duas pessoas se encontram é porque
têm com certeza qualquer coisa que trocar.
Consigo,
Paulo, aconteceu que foi você que me veio pedir ajuda. E se falo aqui dos
papéis é porque o Paulo se revelou daqueles casos em que foi muito importante
eu aplicar a minha experiência de psicoterapeuta com rigor.
O Paulo
«precisava» dessa autoridade, precisou durante muito tempo, de resto. E digo
«precisou» porque o Paulo «foi fazendo» um seguimento comigo ao longo de vários
anos, por várias vezes, várias «fatias», com intervalos de anos volta e meia.
Sinto por
ele – e penso que reciprocamente – uma amizade e intimidade discretas.
Quando o
Paulo veio ter comigo teria vinte e quatro anos. Artista, tinha descoberto a
sua «arte», a música, muito cedo na sua vida. Filho de pai espanhol e mãe
algarvia, vivera a sua primeira infância no Algarve. O liceu já se tinha sido
completado em Lisboa, para onde a mãe e os três filhos se mudaram após a morte
do pai.
Cedo
descobriu que pode não ser simples ser-se artista numa família de intelectuais,
conservadores.
Foi assim
que o Paulo, ao fazer a sua «crise de adolescência», com o aparato e teatro de
que por vezes os adolescentes necessitam, foi parar ao internamento psiquiátrico
de um hospital civil, onde, apesar de só lá ter estado durante três dias,
trouxe um presente que o acompanhou desde então: «Um rótulo de esquizofrénico!»
Foi dizer ao
médico que via monstros, ouvindo então: «Você tem alucinações», e que tinha
pensamentos muito estrambólicos, às vezes violentos! Disseram-lhe então: «Você
tem uma esquizofrenia»!
Este caso é
um exemplo de como uma certa psiquiatria pode rotular pessoas por
comportamentos e não tem atenção aos motivos que levam algumas pessoas a certas
verbalizações e atitudes. Foi assim que o Paulo, que me vinha ver várias vezes
por semana, após uns dois meses de ter iniciado a sua psicanálise, me disse um
dia: «Vim de metro... olhei para as pessoas e vi-as transformarem-se em
monstros – sou mesmo esquizofrénico. E agora aqui também me está a acontecer o
mesmo. Vou-me embora!» E levantou-se dirigindo-se à porta.
A autoridade
acordou em mim e ouvi-me dizer-lhe com voz firme: «Volte a deitar-se aqui
imediatamente», o que ele fez acto
contínuo.
Cheguei
então a minha cadeira mais para a frente. E assim fiquei mais ao lado dele do
que atrás, durante uns largos meses. Senti que precisava de me ver um pouco
mais, mas não demais, pois o face a face era-lhe difícil.
E disse-lhe:
«Com as suas cinco dioptrias de miopia e recusando-se você a usar óculos, devo
dizer-lhe que não me preocupam esses monstros. No dia em que, com a miopia
corrigida com óculos, você olhar para uma cara e a “vir” – e não “imaginar que
vê” – transformar-se em monstro, eu vou começar a preocupar-me consigo! Eu
percebo que, como artista, deseje ser original. Mas, sabe, para ser original
você não precisa de ser maluco!»
Como
expliquei, o Paulo interrompeu e recomeçou mais de cinco vezes a sua análise,
ao longo da vida. A última vez que me veio pedir uma continuação, teria uns
quarenta e cinco anos – nunca mais ouvi falar de «monstros», «alucinações» ou
«esquizofrenia».
O
psicanalista sénior que o tinha referenciado para mim deu-me a indicação de
que, apesar do anterior diagnóstico, ele o tinha entrevistado e tinha achado
que era apenas um grande actor - «um bom histérico, mas não psicótico», como me
disse.
O Paulo
precisava de entender e definir para si próprio o que era isso de ser artista.
Já na altura, no Conservatório, tinha muitos colegas com a mesma preocupação da
«originalidade obrigatória» do artista.
Acabámos por
transportar connosco ao longo dos anos a frase que serviu de título a este
relato - «o flirt com a angústia»,
imagem em que ele próprio se retratou e transportava constantemente com ele
para as nossas sessões.
Sempre muito
bom aluno, terminou o curso com óptimas classificações e começou a pintura,
descobrindo em si ainda um segundo talento artístico. Fez também passagens pelo
teatro. Pintou ainda algumas angústias e alguns monstros e foi assumindo a sua
identidade de artista.
Tenho
encontrado vários artistas com dons múltiplos. Como se a capacidade para
articular o que Freud chamou «o princípio da realidade» com o «princípio do
prazer» fosse uma competência específica de certas personalidades, que se podem
desmultiplicar em várias áreas.
Todos
seremos artistas e criativos, todos teremos de articular estes dois princípios
aprendendo a compactuar com o ritmo e exigências do mundo, sem matar a nossa
criança, os princípios da nossa vida, em que a nossa humanidade tem o direito
de se exprimir no imediato e não passar pela espera.
A espera de
que falo é o tempo que vai entre o momento do aparecimento do desejo até à
altura da sua satisfação, que, sendo muito curta num bebé recém-nascido (porque
a mãe, um mundo, responde às suas necessidades de imediato), vai sendo maior à
medida que crescemos e desenvolvemos os nossos meios pessoais de lhe fazer
face.
A gestão da
«espera» com qualidade é o que definirá a capacidade que cada um de nós vai
tendo de aprender e de enriquecer com as nossas vivências e trocas com o mundo.
É também da forma original como cada um «vai gerindo a sua espera» que dependem
as diferentes personalidades e o facto de cada ser humano ser único.
Aprendi
melhor com o Paulo a diferença entre o poder «viver com criatividade» -
capacidade e inerência da saúde mental de qualquer pessoa – e o «ser um
artista» que produz arte.
O Paulo
tinha períodos em que se angustiava, não percebendo se estava a fazer a música
que se vende mais do que a música que tinha dentro de si. Produzir arte e ser
artista pode nem sempre coincidir.
Foi assim que me contou que já desde a escola
primária se sentia por vezes muito diferente da maior parte dos meninos da sua
classe. Disciplinas em que tivesse de decorar sem entender eram um suplício
para ele. No liceu, passava às vezes uma aula inteira de história ou geografia,
por exemplo, a fazer desenhos e a «viajar» na cabeça. Parecera-lhe sempre
aberrante ter de saber o nome das guelras do peixe em ciências naturais e o
funcionamento cardiovascular dos bois, não falando já nas datas do nascimento
ou morte de reis ou do nome dos rios e afluentes. Em história, o que lhe tinha
sempre interessado eram as relações entre as pessoas e as classes sociais ou religiosas
e a maneira como isso podia levar a guerras, a casamentos, a leis. Mas era
frequente serem as datas o que lhe perguntavam nos exames.
O pai, que
era engenheiro civil, estudava muito com os filhos e dizia sempre que era
preciso treinar a memória e limitar a imaginação. Era um pai terno, mas tão
cheio de regras. Era exigente com as obrigações, e a mãe, assistente social,
era obcecada com o cumprimento de horários.
Às vezes, o
Paulo estava a desenhar, ou a escrever histórias que inventava e tinha de
interromper porque era a hora do banho, ou do jantar, ou da missa... ou mesmo
de arrumar os brinquedos, as canetas, ou o quarto; outra exigência firme da sua
mãe: a arrumação! Um copo de leite deixado na sala era um erro grave.
«Talvez eu
esteja até a exagerar, mas o que me lembro é de um pai e uma mãe que nos
adoravam, que nos educavam, que eram atentos ao nosso crescimento, à nossa
presença... não eram distraídos... mas eu queria era brincar, inventar teatros,
cantigas, pinturas... e faltava-me sempre tempo e espaço para isso!»
Refere que
os irmãos e ele foram sempre três alunos exemplares. Actualmente, um é
engenheiro civil, como o pai, e o outro médico, e tinham-se formado com
resultados brilhantes. Ele também, de resto, mas quando quis ir para o Conservatório
ouviu a mãe durante meses a lamentar a grande asneira que fazia: «Não se vive
da música, da arte... são ilusões! O teu pai, se ainda fosse vivo, ia ficar
desolado. Ele teria gostado tanto de vos ver os três formados num curso “à
séria”», dizia-lhe ela. Influenciado pela mãe, ainda tentou fazer a área de
ciências.
«Eu tentei,
mas era um suplício para mim pensar em continuar para engenharia ou biologia,
como acabei por fazer. E estive um ano a repetir o então terceiro ciclo do
liceu, porque me faltavam cadeiras para poder ir para o Conservatório. Todo o
ano a ouvir a minha mãe matraquear com opiniões, quase ralhetes – foi nessa
altura que tive aquela passagem pelo Hospital de Santa Maria. Às escondidas da
minha mãe, encontrava-me na garagem de um amigo com um grupo, e fazíamos
música. Foi o que me permitiu aguentar aqueles “ralhetes” permanentes.»
E é sem
revolta que diz que entende agora que esta exigência da mãe era de esperar, na
perspectiva dela.
No ano em
que entra para o Conservatório, assume então perante a mãe que é pianista numa
banda amadora de jazz.
Ao contar-me
isto, o Paulo apercebeu-se de que nunca me tinha dito que tivera aulas de piano
desde a sua vinda para Lisboa aos onze anos. E por volta dos quinze anos
convencera a mãe a dar-lhe a possibilidade de ter também aulas de viola.
«Afinal a
sua mãe sempre se abriu ao seu talento e queda musical – porque é que o Paulo
se terá esquecido de me contar algo de tão importante? Uma formação que a sua
mãe lhe proporcionou desde tão novo... Quem o ouvia falar parecia que tinha
sido um desgraçadinho, quase que torturado pela sua mãe!»
Responde-me
então o Paulo com a frase que ficou consagrada entre nós: «Se calhar é o tal flirt com a angústia», e riu-se. Riu-se
mesmo muito, como que «apanhado em falso» como se se tratasse de uma criança a
roubar bolachas ou a espreitar pela fechadura de uma porta proibida. Era um rir
de uma tomada de consciência que foi um grande passo em frente no seu progresso
psicanalítico.
A
consciência da vitimização, que está presente em muitos percursos de
auto-reconhecimento, é sem dúvida um momento de viragem que torna o indivíduo,
enfim, capaz de se sentir responsável pelo seu potencial humano, por aquilo que
tem dentro e o que pode ser capaz de fazer e criar. É, no fundo, o encontro da
sua convicção de que pode fazer-se feliz e de que tem poder sobre si próprio.
O Paulo
estava então na sua quarta e penúltima «fatia» do seu percurso comigo.
Devia ter os
seus trinta e oito anos. Voltou aos quarenta e quatro. Ficou um ano, durante o
qual falou de amores falhados, de alguma solidão e de uma boa carreira
profissional, tanto no ensino da música em escolas superiores e universitárias
como a dar concertos e compor música. Já com três CD de originais gravados, tem
sido ao longo destes anos muito requisitado, mesmo por televisões nacionais e
estrangeiras. Falou também do envelhecer da mãe, a quem os três irmãos
protegeram sempre com prazer, e veio sobretudo, penso eu, para se despedir de
vez daquela tentação de vitimização que o atrapalhara a vida inteira.
Falou-me
então pela primeira vez da dor real da morte do pai. Disse-me: «Percebo que
fiquei furioso com a vida por me ter tirado o meu pai. E acho que se calhar
aquilo do hospital foi uma maneira de me vingar disso.»
«Há seis
anos que não o via, Paulo. Tem pensado nisso do hospital como estando
relacionado com a morte do seu pai?»
«Sim, porque
a Isabel tem razão. Às vezes parece que gosto de sofrer, de me torturar. Estou
outra vez a entrar numa fase dessas, e foi por isso que quis logo vir falar
consigo. Agora que lutei e consegui ter uma boa situação profissional, parece
que quero “estragar com pessimismos”. E pensei que, já naquela altura, posso
ter feito isso a mim próprio. O que acha, Isabel?»
O «doutora»
já tinha desaparecido ao longo dos anos largos do nosso convívio, sempre
interrompido, mas sempre retomado.
«Acho que
enfim parece estar a ter vontade de se despedir da sua tentação de vitimização
que o atrapalhou toda a vida. Talvez possa manter o tal «flirt com a angústia» que pensa que precisa para criar a sua arte,
mas sem transformar os pais ou acontecimentos da sua vida em “maus”.»
O Paulo
sorri, como que aliviado. Achei-o mais crescido, ou melhor, enfim com vontade
de crescer – nunca é tarde para se sair da adolescência e da reactividade aos
pais e à sociedade e poder gozar o prazer de uma nova autonomia interior.
Foi a última
«fatia» da sua «cura analítica» - neste caso foi mesmo uma cura. A cura do
desejo de maluquice, a descoberta do seu «eu» e da capacidade de ser artista,
diferente, original, mas... com saúde mental.
Ficou mais
ou menos um ano, em que cada semana avançava com prazer visível em conhecimento
interior, em elaboração e compreensão de vivências emocionais. Como se todos
estes anos desde a primeira vez que me tinha procurado encontrasse só agora o
seu desfecho e a sua lógica e articulação.
Foram
momentos muito interessantes para mim e para ele, como que uma recompensa do
que ambos tínhamos dado e apostado neste processo arrastado.
Durante
estes meses, e depois de várias relações sentimentais que acabaram sempre por
fazê-lo sofrer, encontrou «uma artista», como dizia, com quem partilha a sua
vida.
«É uma
bailarina, Isabel, que recria a vida em cada movimento. Que bem que nos
entendemos. Os gestos dela não são estudados, entende? Apareceu na minha vida
numa altura ideal. Na minha música pergunto-me muito se estou a ser um músico,
um artista, um criativo, ou um produtor de sons que agradam. Com a minha
bailarina, a Diana, entendi de vez o que é criar ou fingir que se cria.»
Decide então
começar um doutoramento no âmbito do que ensina, e que foi considerado muito
original. Acabou este seu trabalho três anos mais tarde, e convidou-me para a
defesa da tese.
E por aqui
fico, na história do Paulo. Foi uma travessia alongada, mas direi, para acabar,
que se despediu de mim dizendo que já sabe empregar com saúde, abundância e sem
medo do seu medo, o seu «flirt com a
angústia», em períodos de grande actividade de criação artística.
«Isabel,
sinto que não voltarei aqui – acho que não vou precisar porque já não preciso
de culpados, nem de doença, para flirtar
com a angústia. E, sobretudo, já não preciso de “me estragar” e de estragar a
vida para me sentir artista. Podemos continuar amigos?»
Claro que
sim, Paulo.
Sintonizo-me
com a musicalidade da tua humanidade.
Conclusões
O Paulo
andava a boicotar a sua vida, a sabotar a sua saúde. Parecia ter sido a saída
que tinha encontrado para poder ser artista, numa família que ele sentia ter
parâmetros que não aceitavam as suas escolhas.
Exagerando e
deformando a rigidez dos pais, esquecendo por vezes o amor evidente que deles
sempre recebera, ia parar frequentemente a estados de angústia e «maluquice»,
algo representado, que até lhe valeram um diagnóstico de esquizofrenia, pelos
dezassete anos, quando foi internado por três dias no Hospital de Santa Maria.
Qual não
terá sido o quadro de «maluquice» que pintou ao psiquiatra, para acrescentar
mais esta «desgraça» à sua vida e ter mais uma forma de se sentir artista,
diferente e manter aquele «flirt com
a angústia», que pensava inconscientemente constituir a única via para ser
criativo?
Ao tomar
consciência da sua vitimização, conseguiu alcançar a viragem deste processo de
auto-sabotagem e evoluir para um assumir adulto do seu potencial humano e das
suas escolhas artísticas, sem precisar mais de ser vítima de algum carrasco,
abraçando então totalmente, e com saúde, os sucessos a que ia chegando em
várias áreas da sua vida.
A pouco e
pouco a nova relação,
estabelecida com o analista,
vai sendo transferida para o
exterior.
Quer dizer, o paciente começa a experimentar viver
no seu
quotidiano o seu novo estilo relacional:
mais aberto, saudável e expansivo.
E assim se
transforma.
O analista é, por conseguinte, um objecto transformador.
Mas não
só, pois também ele se transforma:
em cada análise que faz
se torna, para além
de mais competente e conhecedor,
mais humano, tolerante e compreensivo.
É,
portanto, um objecto transformacional:
transformador e transformativo,
que transforma o outro
e se transforma.
E só assim a
análise é uma arte, uma ciência e uma criação.
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