Saturday, 11 October 2014

Rótulos







Preâmbulo
Os percursos psicoterapêuticos que inspiram as histórias que descrevo foram usados com o conhecimento e a anuência das pessoas aqui retratadas.
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Como é evidente, todos os dados destas 18 pessoas de que falo foram suficientemente alterados, e os textos, na sua maioria e sempre que possível, submetidos à leitura de cada um, de modo a respeitar ao máximo a privacidade destes meus queridos colaboradores.

Dedicatória
Dedico este livro à minha mãe e também a todos aqueles que me têm procurado e procuram para encontrarem dentro deles o melhor de si.


7
«Um flirt com a angústia»
«A música da saúde»

Ó Paulo! Como foi bom tê-lo tido como um dos meus primeiros pacientes.
Quase da minha idade, quantas vezes me revia em si, apesar de termos «papéis» diferentes e específicos nesta circunstância em que o destino nos cruzou.
Tenho pensado muitas vezes – e dito algumas – que me recuso a que os «papéis» que cruzam as pessoas sejam mais importantes do que o encontro de duas humanidades. De facto, sejam quais forem as circunstâncias, não há dúvida nenhuma de que com biliões de seres humanos para a frente e para trás, com tantos países e multidões no mundo, se há um momento em que duas pessoas se encontram é porque têm com certeza qualquer coisa que trocar.
Consigo, Paulo, aconteceu que foi você que me veio pedir ajuda. E se falo aqui dos papéis é porque o Paulo se revelou daqueles casos em que foi muito importante eu aplicar a minha experiência de psicoterapeuta com rigor.
O Paulo «precisava» dessa autoridade, precisou durante muito tempo, de resto. E digo «precisou» porque o Paulo «foi fazendo» um seguimento comigo ao longo de vários anos, por várias vezes, várias «fatias», com intervalos de anos volta e meia.
Sinto por ele – e penso que reciprocamente – uma amizade e intimidade discretas.
Quando o Paulo veio ter comigo teria vinte e quatro anos. Artista, tinha descoberto a sua «arte», a música, muito cedo na sua vida. Filho de pai espanhol e mãe algarvia, vivera a sua primeira infância no Algarve. O liceu já se tinha sido completado em Lisboa, para onde a mãe e os três filhos se mudaram após a morte do pai.
Cedo descobriu que pode não ser simples ser-se artista numa família de intelectuais, conservadores.
Foi assim que o Paulo, ao fazer a sua «crise de adolescência», com o aparato e teatro de que por vezes os adolescentes necessitam, foi parar ao internamento psiquiátrico de um hospital civil, onde, apesar de só lá ter estado durante três dias, trouxe um presente que o acompanhou desde então: «Um rótulo de esquizofrénico!»
Foi dizer ao médico que via monstros, ouvindo então: «Você tem alucinações», e que tinha pensamentos muito estrambólicos, às vezes violentos! Disseram-lhe então: «Você tem uma esquizofrenia»!
Este caso é um exemplo de como uma certa psiquiatria pode rotular pessoas por comportamentos e não tem atenção aos motivos que levam algumas pessoas a certas verbalizações e atitudes. Foi assim que o Paulo, que me vinha ver várias vezes por semana, após uns dois meses de ter iniciado a sua psicanálise, me disse um dia: «Vim de metro... olhei para as pessoas e vi-as transformarem-se em monstros – sou mesmo esquizofrénico. E agora aqui também me está a acontecer o mesmo. Vou-me embora!» E levantou-se dirigindo-se à porta.
A autoridade acordou em mim e ouvi-me dizer-lhe com voz firme: «Volte a deitar-se aqui imediatamente», o que ele fez acto contínuo.
Cheguei então a minha cadeira mais para a frente. E assim fiquei mais ao lado dele do que atrás, durante uns largos meses. Senti que precisava de me ver um pouco mais, mas não demais, pois o face a face era-lhe difícil.
E disse-lhe: «Com as suas cinco dioptrias de miopia e recusando-se você a usar óculos, devo dizer-lhe que não me preocupam esses monstros. No dia em que, com a miopia corrigida com óculos, você olhar para uma cara e a “vir” – e não “imaginar que vê” – transformar-se em monstro, eu vou começar a preocupar-me consigo! Eu percebo que, como artista, deseje ser original. Mas, sabe, para ser original você não precisa de ser maluco!»
Como expliquei, o Paulo interrompeu e recomeçou mais de cinco vezes a sua análise, ao longo da vida. A última vez que me veio pedir uma continuação, teria uns quarenta e cinco anos – nunca mais ouvi falar de «monstros», «alucinações» ou «esquizofrenia».
O psicanalista sénior que o tinha referenciado para mim deu-me a indicação de que, apesar do anterior diagnóstico, ele o tinha entrevistado e tinha achado que era apenas um grande actor - «um bom histérico, mas não psicótico», como me disse.
O Paulo precisava de entender e definir para si próprio o que era isso de ser artista. Já na altura, no Conservatório, tinha muitos colegas com a mesma preocupação da «originalidade obrigatória» do artista.
Acabámos por transportar connosco ao longo dos anos a frase que serviu de título a este relato - «o flirt com a angústia», imagem em que ele próprio se retratou e transportava constantemente com ele para as nossas sessões.
Sempre muito bom aluno, terminou o curso com óptimas classificações e começou a pintura, descobrindo em si ainda um segundo talento artístico. Fez também passagens pelo teatro. Pintou ainda algumas angústias e alguns monstros e foi assumindo a sua identidade de artista.
Tenho encontrado vários artistas com dons múltiplos. Como se a capacidade para articular o que Freud chamou «o princípio da realidade» com o «princípio do prazer» fosse uma competência específica de certas personalidades, que se podem desmultiplicar em várias áreas.
Todos seremos artistas e criativos, todos teremos de articular estes dois princípios aprendendo a compactuar com o ritmo e exigências do mundo, sem matar a nossa criança, os princípios da nossa vida, em que a nossa humanidade tem o direito de se exprimir no imediato e não passar pela espera.
A espera de que falo é o tempo que vai entre o momento do aparecimento do desejo até à altura da sua satisfação, que, sendo muito curta num bebé recém-nascido (porque a mãe, um mundo, responde às suas necessidades de imediato), vai sendo maior à medida que crescemos e desenvolvemos os nossos meios pessoais de lhe fazer face.
A gestão da «espera» com qualidade é o que definirá a capacidade que cada um de nós vai tendo de aprender e de enriquecer com as nossas vivências e trocas com o mundo. É também da forma original como cada um «vai gerindo a sua espera» que dependem as diferentes personalidades e o facto de cada ser humano ser único.
Aprendi melhor com o Paulo a diferença entre o poder «viver com criatividade» - capacidade e inerência da saúde mental de qualquer pessoa – e o «ser um artista» que produz arte.
O Paulo tinha períodos em que se angustiava, não percebendo se estava a fazer a música que se vende mais do que a música que tinha dentro de si. Produzir arte e ser artista pode nem sempre coincidir.
 Foi assim que me contou que já desde a escola primária se sentia por vezes muito diferente da maior parte dos meninos da sua classe. Disciplinas em que tivesse de decorar sem entender eram um suplício para ele. No liceu, passava às vezes uma aula inteira de história ou geografia, por exemplo, a fazer desenhos e a «viajar» na cabeça. Parecera-lhe sempre aberrante ter de saber o nome das guelras do peixe em ciências naturais e o funcionamento cardiovascular dos bois, não falando já nas datas do nascimento ou morte de reis ou do nome dos rios e afluentes. Em história, o que lhe tinha sempre interessado eram as relações entre as pessoas e as classes sociais ou religiosas e a maneira como isso podia levar a guerras, a casamentos, a leis. Mas era frequente serem as datas o que lhe perguntavam nos exames.
O pai, que era engenheiro civil, estudava muito com os filhos e dizia sempre que era preciso treinar a memória e limitar a imaginação. Era um pai terno, mas tão cheio de regras. Era exigente com as obrigações, e a mãe, assistente social, era obcecada com o cumprimento de horários.
Às vezes, o Paulo estava a desenhar, ou a escrever histórias que inventava e tinha de interromper porque era a hora do banho, ou do jantar, ou da missa... ou mesmo de arrumar os brinquedos, as canetas, ou o quarto; outra exigência firme da sua mãe: a arrumação! Um copo de leite deixado na sala era um erro grave.
«Talvez eu esteja até a exagerar, mas o que me lembro é de um pai e uma mãe que nos adoravam, que nos educavam, que eram atentos ao nosso crescimento, à nossa presença... não eram distraídos... mas eu queria era brincar, inventar teatros, cantigas, pinturas... e faltava-me sempre tempo e espaço para isso!»
Refere que os irmãos e ele foram sempre três alunos exemplares. Actualmente, um é engenheiro civil, como o pai, e o outro médico, e tinham-se formado com resultados brilhantes. Ele também, de resto, mas quando quis ir para o Conservatório ouviu a mãe durante meses a lamentar a grande asneira que fazia: «Não se vive da música, da arte... são ilusões! O teu pai, se ainda fosse vivo, ia ficar desolado. Ele teria gostado tanto de vos ver os três formados num curso “à séria”», dizia-lhe ela. Influenciado pela mãe, ainda tentou fazer a área de ciências.
«Eu tentei, mas era um suplício para mim pensar em continuar para engenharia ou biologia, como acabei por fazer. E estive um ano a repetir o então terceiro ciclo do liceu, porque me faltavam cadeiras para poder ir para o Conservatório. Todo o ano a ouvir a minha mãe matraquear com opiniões, quase ralhetes – foi nessa altura que tive aquela passagem pelo Hospital de Santa Maria. Às escondidas da minha mãe, encontrava-me na garagem de um amigo com um grupo, e fazíamos música. Foi o que me permitiu aguentar aqueles “ralhetes” permanentes.»
E é sem revolta que diz que entende agora que esta exigência da mãe era de esperar, na perspectiva dela.
No ano em que entra para o Conservatório, assume então perante a mãe que é pianista numa banda amadora de jazz.
Ao contar-me isto, o Paulo apercebeu-se de que nunca me tinha dito que tivera aulas de piano desde a sua vinda para Lisboa aos onze anos. E por volta dos quinze anos convencera a mãe a dar-lhe a possibilidade de ter também aulas de viola.
«Afinal a sua mãe sempre se abriu ao seu talento e queda musical – porque é que o Paulo se terá esquecido de me contar algo de tão importante? Uma formação que a sua mãe lhe proporcionou desde tão novo... Quem o ouvia falar parecia que tinha sido um desgraçadinho, quase que torturado pela sua mãe!»
Responde-me então o Paulo com a frase que ficou consagrada entre nós: «Se calhar é o tal flirt com a angústia», e riu-se. Riu-se mesmo muito, como que «apanhado em falso» como se se tratasse de uma criança a roubar bolachas ou a espreitar pela fechadura de uma porta proibida. Era um rir de uma tomada de consciência que foi um grande passo em frente no seu progresso psicanalítico.
A consciência da vitimização, que está presente em muitos percursos de auto-reconhecimento, é sem dúvida um momento de viragem que torna o indivíduo, enfim, capaz de se sentir responsável pelo seu potencial humano, por aquilo que tem dentro e o que pode ser capaz de fazer e criar. É, no fundo, o encontro da sua convicção de que pode fazer-se feliz e de que tem poder sobre si próprio.
O Paulo estava então na sua quarta e penúltima «fatia» do seu percurso comigo.
Devia ter os seus trinta e oito anos. Voltou aos quarenta e quatro. Ficou um ano, durante o qual falou de amores falhados, de alguma solidão e de uma boa carreira profissional, tanto no ensino da música em escolas superiores e universitárias como a dar concertos e compor música. Já com três CD de originais gravados, tem sido ao longo destes anos muito requisitado, mesmo por televisões nacionais e estrangeiras. Falou também do envelhecer da mãe, a quem os três irmãos protegeram sempre com prazer, e veio sobretudo, penso eu, para se despedir de vez daquela tentação de vitimização que o atrapalhara a vida inteira.
Falou-me então pela primeira vez da dor real da morte do pai. Disse-me: «Percebo que fiquei furioso com a vida por me ter tirado o meu pai. E acho que se calhar aquilo do hospital foi uma maneira de me vingar disso.»
«Há seis anos que não o via, Paulo. Tem pensado nisso do hospital como estando relacionado com a morte do seu pai?»
«Sim, porque a Isabel tem razão. Às vezes parece que gosto de sofrer, de me torturar. Estou outra vez a entrar numa fase dessas, e foi por isso que quis logo vir falar consigo. Agora que lutei e consegui ter uma boa situação profissional, parece que quero “estragar com pessimismos”. E pensei que, já naquela altura, posso ter feito isso a mim próprio. O que acha, Isabel?»
O «doutora» já tinha desaparecido ao longo dos anos largos do nosso convívio, sempre interrompido, mas sempre retomado.
«Acho que enfim parece estar a ter vontade de se despedir da sua tentação de vitimização que o atrapalhou toda a vida. Talvez possa manter o tal «flirt com a angústia» que pensa que precisa para criar a sua arte, mas sem transformar os pais ou acontecimentos da sua vida em “maus”.»
O Paulo sorri, como que aliviado. Achei-o mais crescido, ou melhor, enfim com vontade de crescer – nunca é tarde para se sair da adolescência e da reactividade aos pais e à sociedade e poder gozar o prazer de uma nova autonomia interior.
Foi a última «fatia» da sua «cura analítica» - neste caso foi mesmo uma cura. A cura do desejo de maluquice, a descoberta do seu «eu» e da capacidade de ser artista, diferente, original, mas... com saúde mental.
Ficou mais ou menos um ano, em que cada semana avançava com prazer visível em conhecimento interior, em elaboração e compreensão de vivências emocionais. Como se todos estes anos desde a primeira vez que me tinha procurado encontrasse só agora o seu desfecho e a sua lógica e articulação.
Foram momentos muito interessantes para mim e para ele, como que uma recompensa do que ambos tínhamos dado e apostado neste processo arrastado.
Durante estes meses, e depois de várias relações sentimentais que acabaram sempre por fazê-lo sofrer, encontrou «uma artista», como dizia, com quem partilha a sua vida.
«É uma bailarina, Isabel, que recria a vida em cada movimento. Que bem que nos entendemos. Os gestos dela não são estudados, entende? Apareceu na minha vida numa altura ideal. Na minha música pergunto-me muito se estou a ser um músico, um artista, um criativo, ou um produtor de sons que agradam. Com a minha bailarina, a Diana, entendi de vez o que é criar ou fingir que se cria.»
Decide então começar um doutoramento no âmbito do que ensina, e que foi considerado muito original. Acabou este seu trabalho três anos mais tarde, e convidou-me para a defesa da tese.
E por aqui fico, na história do Paulo. Foi uma travessia alongada, mas direi, para acabar, que se despediu de mim dizendo que já sabe empregar com saúde, abundância e sem medo do seu medo, o seu «flirt com a angústia», em períodos de grande actividade de criação artística.
«Isabel, sinto que não voltarei aqui – acho que não vou precisar porque já não preciso de culpados, nem de doença, para flirtar com a angústia. E, sobretudo, já não preciso de “me estragar” e de estragar a vida para me sentir artista. Podemos continuar amigos?»
Claro que sim, Paulo.
Sintonizo-me com a musicalidade da tua humanidade.

Conclusões
O Paulo andava a boicotar a sua vida, a sabotar a sua saúde. Parecia ter sido a saída que tinha encontrado para poder ser artista, numa família que ele sentia ter parâmetros que não aceitavam as suas escolhas.
Exagerando e deformando a rigidez dos pais, esquecendo por vezes o amor evidente que deles sempre recebera, ia parar frequentemente a estados de angústia e «maluquice», algo representado, que até lhe valeram um diagnóstico de esquizofrenia, pelos dezassete anos, quando foi internado por três dias no Hospital de Santa Maria.
Qual não terá sido o quadro de «maluquice» que pintou ao psiquiatra, para acrescentar mais esta «desgraça» à sua vida e ter mais uma forma de se sentir artista, diferente e manter aquele «flirt com a angústia», que pensava inconscientemente constituir a única via para ser criativo?
Ao tomar consciência da sua vitimização, conseguiu alcançar a viragem deste processo de auto-sabotagem e evoluir para um assumir adulto do seu potencial humano e das suas escolhas artísticas, sem precisar mais de ser vítima de algum carrasco, abraçando então totalmente, e com saúde, os sucessos a que ia chegando em várias áreas da sua vida.



















A pouco e pouco a nova relação, 
estabelecida com o analista, 
vai sendo transferida para o exterior. 
Quer dizer, o paciente começa a experimentar viver 
no seu quotidiano o seu novo estilo relacional: 
mais aberto, saudável e expansivo.
E assim se transforma. 
O analista é, por conseguinte, um objecto transformador.
Mas não só, pois também ele se transforma: 
em cada análise que faz 
se torna, para além de mais competente e conhecedor, 
mais humano, tolerante e compreensivo. 
É, portanto, um objecto transformacional
transformador e transformativo, 
que transforma o outro 
e se transforma.

E só assim a análise é uma arte, uma ciência e uma criação.










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