Os meus companheiros
Na
minha classe há muitos alunos. Somos todos muito amigos. Estudamos muito e
ajudamo-nos uns aos outros.
O
nosso professor deixa-nos formar grupos para prepararmos os trabalhos ao mesmo
tempo, mas não copiamos uns pelos outros. Assim fazemos os nossos trabalhos
juntos.
Nunca
nos aborrecemos. Desenhamos bastante nas nossas lições escritas.
Com
os bonecos que fazemos, melhor nos lembra o que nos ensina o nosso professor.
Além disso, o nosso caderno fica mais bonito, mais alegre e até dá mais vontade
de o guardar. Assim recordamos melhor os trabalhos da escola.
O
MEU ARCO
O
meu arco roda,
roda
sem parar;
corre
tanto, tanto
que
custa a apanhar.
O
meu arco roda,
roda
para a frente,
e
eu vou atrás dele
a
correr contente.
E
vai tão depressa
em
volta da praça
que,
a vê-lo correr,
todos
lhe acham graça.
Meu
arco é redondo
muito
redondinho;
tão
redondo como...
como
um anelzinho.
O
meu arco roda,
roda
sem parar;
corre
tanto, tanto
que
custa a apanhar.
O
MEU LIVRO
Eu
já sei ler. O meu livro é muito bonito. Tem desenhos muito bem feitos.
Vou
aprender muito com este livrinho. Terei muito cuidado com ele: não o hei-de
sujar nem rasgar. Também não hei-de virar as folhas, molhando o dedo, nem lhes
hei-de dobrar os cantos.
Nunca
o abrirei demais, para não dar cabo dele. Para marcar a lição, pedirei à
mãezinha que me dê um boneco.
Para
não estragar o meu livro, vou forrá-lo com papel de cor.
Não
é preciso, interveio uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este
senhor a casa. Ouviram-se murmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam
pelo braço, Venha, venha comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se
no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurança, Não vejo, não
vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora, pediu o outro. Pelas janelas
do carro espreitavam caras vorazes, gulosas da novidade. O cego ergueu as mãos
diante dos olhos, moveu-as, Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é
como se tivesse caído num mar de leite, Mas a cegueira não é assim, disse o
outro, a cegueira dizem que é negra, Pois eu vejo tudo branco, Se calhar a
mulherzinha tinha razão, pode ser coisa de nervos, os nervos são o diabo, Eu
bem sei o que é, uma desgraça, sim, uma desgraça, Diga-me onde mora, por favor,
ao mesmo tempo ouviu-se o arranque do motor. Balbuciando, como se a falta de
visão lhe tivesse enfraquecido a memória, o cego deu uma direcção, depois
disse, Não sei como lhe hei-de agradecer, e o outro respondeu, Ora, não tem
importância, hoje por si, amanhã por mim, não sabemos para o que estamos
guardados, Tem razão, quem me diria, quando saí de casa esta manhã, que estava
para me acontecer uma fatalidade como esta. Estranhou que continuassem parados,
Por que é que não andamos, perguntou, O sinal está no vermelho, respondeu o
outro, Ah, fez o cego, e pôs-se a chorar outra vez. A partir de agora deixara
de poder saber quando o sinal estava vermelho.
José
Saramago. 1995
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