Wednesday, 10 September 2014

Pontuação








Os meus companheiros

Na minha classe há muitos alunos. Somos todos muito amigos. Estudamos muito e ajudamo-nos uns aos outros.
O nosso professor deixa-nos formar grupos para prepararmos os trabalhos ao mesmo tempo, mas não copiamos uns pelos outros. Assim fazemos os nossos trabalhos juntos.
Nunca nos aborrecemos. Desenhamos bastante nas nossas lições escritas.
Com os bonecos que fazemos, melhor nos lembra o que nos ensina o nosso professor. Além disso, o nosso caderno fica mais bonito, mais alegre e até dá mais vontade de o guardar. Assim recordamos melhor os trabalhos da escola.


O MEU ARCO

O meu arco roda,
roda sem parar;
corre tanto, tanto
que custa a apanhar.

O meu arco roda,
roda para a frente,
e eu vou atrás dele
a correr contente.

E vai tão depressa
em volta da praça
que, a vê-lo correr,
todos lhe acham graça.

Meu arco é redondo
muito redondinho;
tão redondo como...
como um anelzinho.

O meu arco roda,
roda sem parar;
corre tanto, tanto
que custa a apanhar.




O MEU LIVRO

Eu já sei ler. O meu livro é muito bonito. Tem desenhos muito bem feitos.
Vou aprender muito com este livrinho. Terei muito cuidado com ele: não o hei-de sujar nem rasgar. Também não hei-de virar as folhas, molhando o dedo, nem lhes hei-de dobrar os cantos.
Nunca o abrirei demais, para não dar cabo dele. Para marcar a lição, pedirei à mãezinha que me dê um boneco.
Para não estragar o meu livro, vou forrá-lo com papel de cor.





Não é preciso, interveio uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-se murmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam pelo braço, Venha, venha comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurança, Não vejo, não vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora, pediu o outro. Pelas janelas do carro espreitavam caras vorazes, gulosas da novidade. O cego ergueu as mãos diante dos olhos, moveu-as, Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite, Mas a cegueira não é assim, disse o outro, a cegueira dizem que é negra, Pois eu vejo tudo branco, Se calhar a mulherzinha tinha razão, pode ser coisa de nervos, os nervos são o diabo, Eu bem sei o que é, uma desgraça, sim, uma desgraça, Diga-me onde mora, por favor, ao mesmo tempo ouviu-se o arranque do motor. Balbuciando, como se a falta de visão lhe tivesse enfraquecido a memória, o cego deu uma direcção, depois disse, Não sei como lhe hei-de agradecer, e o outro respondeu, Ora, não tem importância, hoje por si, amanhã por mim, não sabemos para o que estamos guardados, Tem razão, quem me diria, quando saí de casa esta manhã, que estava para me acontecer uma fatalidade como esta. Estranhou que continuassem parados, Por que é que não andamos, perguntou, O sinal está no vermelho, respondeu o outro, Ah, fez o cego, e pôs-se a chorar outra vez. A partir de agora deixara de poder saber quando o sinal estava vermelho.

José Saramago. 1995
















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