Saturday, 6 September 2014

Sensacional




























Frequentes vezes admite o narrador a sua incapacidade
para descrever o observado,
confessando a deficiência do seu discurso
e do seu repertório lexical e semântico
que não lhe permite traduzir as suas opiniões e emoções,
moldados por uma cosmovisão distinta.
Reconhece, então, o desconhecimento das causas e efeitos de determinados fenómenos;
omite voluntariamente alguns dados por os considerar inoportunos ou desnecessários;
justifica afirmações suas, de modo a evitar possíveis mal-entendidos advenientes de suas palavras.
Quando esboça quadros descritivos
e de tal tem consciência clara,
para lhes incutir maior realismo
efectua registos graciosos ou dramáticos de sensações visuais, auditivas e olfactivas,
processo responsável pelo sensacionalismo emanante das descrições constantes do capítulo 72,
no qual a fauna marítima do rio de Patebenão, onde

vimos outros como grandes lagartos,
pintados de verde e preto,
com três ordens de espinhas no lombo,
da grossura de uma seta,
e de quase três palmos de comprido,
muito agudas nas pontas,
e o mais do corpo todo cheio delas,
mas não tão grossas nem tão compridas. [...]
somente direi que em duas noites que aqui estivemos surtos,
nos não dávamos por seguros
dos lagartos, baleias, peixes e serpentes que de dia tínhamos visto,
porque eram tantos os uivos, os assopros e roncos,
e na praia os relinchos dos cavalos marinhos,
que eu não atrevo a podê-lo declarar com palavras.

Este é igualmente um exemplo de exotema negativo de imperícia,
na medida em que o narrador admite a inoperância do seu discurso
face à realidade constatada.
...
o espírito humanista e experimentalista
daquele que a enunciou, que assim desmascara crenças
construídas sobre dogmas
e às quais contrapõe a verdade dos factos
observados e verificados directamente.



Maria da Graça Orge Martins
Apontamentos Europa-América Explicam Fernão Mendes Pinto – Peregrinação
1989














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