Frequentes
vezes admite o narrador a sua incapacidade
para
descrever o observado,
confessando
a deficiência do seu discurso
e
do seu repertório lexical e semântico
que
não lhe permite traduzir as suas opiniões e emoções,
moldados
por uma cosmovisão distinta.
Reconhece,
então, o desconhecimento das causas e efeitos de determinados fenómenos;
omite
voluntariamente alguns dados por os considerar inoportunos ou desnecessários;
justifica
afirmações suas, de modo a evitar possíveis mal-entendidos advenientes de suas
palavras.
Quando
esboça quadros descritivos
e
de tal tem consciência clara,
para
lhes incutir maior realismo
efectua
registos graciosos ou dramáticos de sensações visuais, auditivas e olfactivas,
processo
responsável pelo sensacionalismo emanante das descrições constantes do capítulo
72,
no
qual a fauna marítima do rio de Patebenão, onde
vimos outros
como grandes lagartos,
pintados de
verde e preto,
com três
ordens de espinhas no lombo,
da grossura de
uma seta,
e de quase
três palmos de comprido,
muito agudas
nas pontas,
e o mais do
corpo todo cheio delas,
mas não tão
grossas nem tão compridas. [...]
somente direi
que em duas noites que aqui estivemos surtos,
nos não
dávamos por seguros
dos lagartos,
baleias, peixes e serpentes que de dia tínhamos visto,
porque eram
tantos os uivos, os assopros e roncos,
e na praia os
relinchos dos cavalos marinhos,
que eu não
atrevo a podê-lo declarar com palavras.
Este
é igualmente um exemplo de exotema negativo de imperícia,
na
medida em que o narrador admite a inoperância do seu discurso
face
à realidade constatada.
...
o
espírito humanista e experimentalista
daquele
que a enunciou, que assim desmascara crenças
construídas
sobre dogmas
e
às quais contrapõe a verdade dos factos
observados
e verificados directamente.
Maria
da Graça Orge Martins
Apontamentos
Europa-América Explicam Fernão Mendes Pinto – Peregrinação
1989
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