placenta
amniotic fluid
umbilical cord
yellow waxy substance that protects an unborn baby's skin
intelligence
friendship
strength
poetry
Today Ketut told me that he's never taught any Westerner the Four Brothers Meditation yet, but he thinks I am ready for it.
Elizabeth Gilbert. 2006
Em
1937, devido ao seu intenso envolvimento político, viu toda a primeira edição
do seu livro Capitães da Areia ser
queimada em praça pública, o que o levou, em 1941, ao exílio na Argentina e no
Uruguai. Em 1945, Jorge Amado uniu-se a Zélia Gattai, companheira de toda a sua
vida. Deputado federal pelo Estado de São Paulo, fez parte da Assembleia
Constituinte votando leis importantes, como a que ainda hoje garante a
liberdade religiosa no país. Em 1947, o Partido Comunista foi ilegalizado e
Jorge Amado perdeu os seus direitos políticos. Voltou para o exílio, desta vez
em França e na Checoslováquia, continuando a escrever e a trabalhar pela paz,
agora em companhia de Pablo Neruda, seu velho amigo, de Pablo Picasso, de Louis
Arragon, de Nicolás Guillen, só regressando ao Brasil em 1952.
A
menina não tenta inocentar-se. Recusara convites anteriores, o mascate a tinha
de olho há tempos. Desta vez agora ela disse vamos, sabendo a que ia.
Quando,
porém, sente a mão pesada segurar-lhe o braço o medo a invade inteira, da
cabeça aos pés. Contém-se, no entanto não busca fugir.
O
homem a derruba sobre as folhas dos coqueiros, suspende-lhe a saia, arranca-lhe
a calçola, trapo sujo. De joelhos sobre ela, enterra o chapéu na areia para que
não voe e se perca, abre a braguilha. A menina o deixa fazer e quer que ele o
faça. Para ela soara o tempo, como para as cabritas a hora temida e desejada, a
hora implacável do bode Inácio, o saco quase a arrastar por terra de tão
grande. Sua hora chegara, já não lhe corria sangue entre as coxas todos os
meses?
Nas
dunas de Mangue Seco, Tieta, pastora de cabras, conheceu o gosto do homem,
mistura de mar e suor, de areia e vento. Quando o mascate a arrombou, igual à
cabrita horas atrás, ela berrou. De dor e de contentamento.
.1977
u2 – please / the playboy mansion
vanessa
da mata / ben harper - boa sorte
bryan adams – the only thing that
looks good on me is you
por
Daniel Sampaio .2000
Hoje
um doente disse-me: «Batem as portas, em tons de suicídio, como se fossem um
corpo a cair do nono andar...»
Estou muito perto do
horizonte.
A casa parece-me estranha.
Perdi, em definitivo, o
rasto do amor.
Sinto o deserto dentro de
mim.
Antes de morrer, quero abrir
o coração pela última vez.
Estava em Newark há três
dias.
Deitavam-me cedo,
muitas vezes ficava acordada
a ver o candeeiro do tecto,
a prateleira de bonecos de
peluche,
o lego empilhado no chão,
a roupa na cadeira.
Adormecia por fim,
a ouvir a televisão na sala
ao lado, ruídos na casa de banho,
a tosse de minha tia.
Nessa noite havia um
estranho silêncio,
só ao longe o ruído de um
café,
as vozes dos vizinhos.
Sonhei com Portugal e com os
meus pais, Lisboa,
passeios ao domingo, a luz
da manhã.
Acordei sem saber onde
estava, cheia de sede, solidão.
Chamei, o meu tio veio logo,
um copo de leite e um
gelado,
ficou a olhar-me sem nada
dizer.
Não estou hoje certa se
dormia,
mas segura de que em dado
momento se deitou a meu lado
e começou a ajeitar-me os
cabelos.
Depois foi tudo num
instante, beijos, carícias em sítios desconhecidos do meu corpo,
palavras estranhas,
promessas de presentes e segredos.
A certa altura nada
entendia,
via a sua pulseira de oiro
junto ao meu rosto,
beijos,
de pé junto à cama a tirar
os boxers,
de novo a meu lado sem nada
dizer.
Preciso contar-te isto antes
da minha morte.
Não sei se compreenderás,
porque o meu pensamento não encontra o teu
e não nos vamos voltar a
ver.
Nem percebes o que Newark
tem a ver contigo. Espera só um pouco.
Tudo se repetiu durante
quatro noites.
Já conhecia o ruído da porta
a abrir-se,
os passos do meu tio no
tapete a contornar o lego,
depois deitado a meu lado,
ou meio suspenso em cima de
mim.
Em seguida ameaçava-me se
contasse a alguém.
Um dia fiquei suja sem
perceber porquê.
Depois de ele se ir embora,
chorava em silêncio até
adormecer de cansaço.
Não vale a pena falar mais
nisto.
Só preciso explicar porque
penso em ti quando recordo.
É que, na nossa noite do
Meco, esqueci Newark.
Foi um sentimento tão
intenso que não consigo descrevê-lo.
Não precisei fingir, como
fazia com o Francisco.
Não necessitei fugir, como
fiz com outros rapazes que se aproximaram de mim.
...
Como diria o meu pai
a
vida é um dilema singelo,
ou
se é bigorna ou se é martelo
e eu adaptei-me sempre a ser
batida desde os seis anos.
por
Pedro Strecht. 2002
A
Mãe do Gonçalo era também uma pessoa deprimida, facto que sabemos ser muito
importante para a depressão na criança: a depressão infantil pode ser entendida
como um eco da decepção materna em relação a essa criança, como escreveu Teresa
Ferreira. O filho mau era a projecção de toda a malignidade que esta mulher
sentia dentro de si e que a impedia de tirar um gosto, um prazer na relação com
a criança: «Sinto-me triste, tentei matar-me há um tempo. Também me fizeram
muito mal a mim em criança. Quando o Gonçalo nasceu até me custava olhar para
ele, pegar nele. Já corria tudo mal com o meu marido. O pai não gosta do
Gonçalo, só lhe dá desprezo, parece que tem ciúmes.»
Buscando
ajuda desde há dois anos, Mãe e filho pareciam no limiar de um desespero:
«A
única coisa que têm dado ao Gonçalo é comprimidos para acalmar, mas ele está na
mesma.»
Este
«menino mau, encharcado em remédios» entra para a sala com um ar muito zangado.
É um menino de cabelo escuro e despenteado. Senta-se em frente a mim, numa
cadeira do outro lado da secretária, e não me olha. Com o lábio inferior puxado
para a frente, sopra ar que lhe levanta uma franja: o tom é de grande frete. Só
fixa a parede, e desvia o olhar mesmo nos breves momentos em que encontra o
meu. Não diz nada, silêncio completo. Tento respeitar o seu silêncio e digo-lhe
apenas:
«Eu
sei que deves estar zangado com muitas coisas. Eu percebo-te, mas também acho
que, se calhar, tens andado à procura de alguém que te compreenda nisso mesmo.»
Mais
nada. Muito silêncio e o mesmo ar terrivelmente zangado.
Depois,
os pés a baterem na secretária, ora mais mansos, ora mais fortes. Faço
corresponder afectos a estes movimentos de pontapés, dizendo «agora mais
devagar, está mais calminho... mais depressa, está muito zangado...»
Parece
aceitar este jogo, até que de repente começa a bater com muita força, violento,
como quem vai destruir a secretária. Levanto-me, seguro-lhe os pés e digo-lhe:
«Gonçalo,
o que eu estava a dizer-te era que aqui vamos poder pensar nas tuas coisas. Dar
pontapés é não-pensar.»
...
- o
amor significa ser fruto de um acto feliz de criação de duas pessoas (Pai e
Mãe); significa estar vivo, existir e ser amado por quem o originou; significa
que todas as crianças possam nascer iguais em direitos; significa gostarmos de
nós pela percepção primeira de que alguém gosta de nós;
- o
amor significa ser cuidado, alimentado, tocado; significa ser reconhecido como
um ser único; significa gostarmos de nós novamente, gostarmos dos Pais e voltar
a sentir que eles gostam de nós;
...
- o
amor significa gostar e saber cuidar de outros para além de nós, vivendo de
forma criativa e adaptada ao que pensamos, sentimos (mundo interior), e ao que
nos rodeia (realidade exterior); significa desejar para os outros o que foi bom
para nós e emendar o que de mau achamos que nós próprios vivemos.
por
Jorge Amado .1977
Elisa
construíra pouco a pouco imaginário retrato da irmã, fada alegre, bela e
bondosa, habitando um mundo rico e feliz. Nessa visão pensa e nela se apóia
quando sonha com outra vida, mais além da pasmaceira e do cansaço. Morta
Antonieta, que restará a Elisa? As revistas de fotonovelas, nada mais. Nem
isso, meu Deus! Onde os níqueis, sobrados das despesas, com que comprá-las?
Tristeza
por tudo quanto perderá, o dinheiro mensal, os presentes, o devaneio, o sonho,
mas também tristeza simplesmente pela morte da irmã; gostará de alguém tanto
quanto gosta dessa meia-irmã que não conhece? Reage, na necessidade de
conservar pelo menos a esperança: Perpétua imagina sempre o pior, boca de
agouro.
-
Se ela tivesse morrido, a gente já tinha sabido, alguém havia de dar a notícia.
Em casa dela tem nosso endereço, todo mês ela escreve, não é? Haviam de
avisar... – há dois dias, na labuta da casa, na cama de insónia, repete esses
argumentos para si mesma.
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