Monday, 29 September 2014

the show must go on




placenta
amniotic fluid
umbilical cord
yellow waxy substance that protects an unborn baby's skin

intelligence
friendship
strength
poetry


Today Ketut told me that he's never taught any Westerner the Four Brothers Meditation yet, but he thinks I am ready for it.

Elizabeth Gilbert. 2006




Em 1937, devido ao seu intenso envolvimento político, viu toda a primeira edição do seu livro Capitães da Areia ser queimada em praça pública, o que o levou, em 1941, ao exílio na Argentina e no Uruguai. Em 1945, Jorge Amado uniu-se a Zélia Gattai, companheira de toda a sua vida. Deputado federal pelo Estado de São Paulo, fez parte da Assembleia Constituinte votando leis importantes, como a que ainda hoje garante a liberdade religiosa no país. Em 1947, o Partido Comunista foi ilegalizado e Jorge Amado perdeu os seus direitos políticos. Voltou para o exílio, desta vez em França e na Checoslováquia, continuando a escrever e a trabalhar pela paz, agora em companhia de Pablo Neruda, seu velho amigo, de Pablo Picasso, de Louis Arragon, de Nicolás Guillen, só regressando ao Brasil em 1952.  


A menina não tenta inocentar-se. Recusara convites anteriores, o mascate a tinha de olho há tempos. Desta vez agora ela disse vamos, sabendo a que ia.
Quando, porém, sente a mão pesada segurar-lhe o braço o medo a invade inteira, da cabeça aos pés. Contém-se, no entanto não busca fugir.
O homem a derruba sobre as folhas dos coqueiros, suspende-lhe a saia, arranca-lhe a calçola, trapo sujo. De joelhos sobre ela, enterra o chapéu na areia para que não voe e se perca, abre a braguilha. A menina o deixa fazer e quer que ele o faça. Para ela soara o tempo, como para as cabritas a hora temida e desejada, a hora implacável do bode Inácio, o saco quase a arrastar por terra de tão grande. Sua hora chegara, já não lhe corria sangue entre as coxas todos os meses?
Nas dunas de Mangue Seco, Tieta, pastora de cabras, conheceu o gosto do homem, mistura de mar e suor, de areia e vento. Quando o mascate a arrombou, igual à cabrita horas atrás, ela berrou. De dor e de contentamento.

.1977

u2 – please / the playboy mansion


vanessa da mata / ben harper - boa sorte


bryan adams – the only thing that looks good on me is you




por Daniel Sampaio .2000

Hoje um doente disse-me: «Batem as portas, em tons de suicídio, como se fossem um corpo a cair do nono andar...»

Estou muito perto do horizonte.
A casa parece-me estranha.
Perdi, em definitivo, o rasto do amor.
Sinto o deserto dentro de mim.
Antes de morrer, quero abrir o coração pela última vez.
Estava em Newark há três dias.
Deitavam-me cedo,
muitas vezes ficava acordada a ver o candeeiro do tecto,
a prateleira de bonecos de peluche,
o lego empilhado no chão,
a roupa na cadeira.
Adormecia por fim,
a ouvir a televisão na sala ao lado, ruídos na casa de banho,
a tosse de minha tia.
Nessa noite havia um estranho silêncio,
só ao longe o ruído de um café,
as vozes dos vizinhos.
Sonhei com Portugal e com os meus pais, Lisboa,
passeios ao domingo, a luz da manhã.
Acordei sem saber onde estava, cheia de sede, solidão.
Chamei, o meu tio veio logo,
um copo de leite e um gelado,
ficou a olhar-me sem nada dizer.
Não estou hoje certa se dormia,
mas segura de que em dado momento se deitou a meu lado
e começou a ajeitar-me os cabelos.
Depois foi tudo num instante, beijos, carícias em sítios desconhecidos do meu corpo,
palavras estranhas, promessas de presentes e segredos.
A certa altura nada entendia,
via a sua pulseira de oiro junto ao meu rosto,
beijos,
de pé junto à cama a tirar os boxers,
de novo a meu lado sem nada dizer.
Preciso contar-te isto antes da minha morte.
Não sei se compreenderás, porque o meu pensamento não encontra o teu
e não nos vamos voltar a ver.
Nem percebes o que Newark tem a ver contigo. Espera só um pouco.
Tudo se repetiu durante quatro noites.
Já conhecia o ruído da porta a abrir-se,
os passos do meu tio no tapete a contornar o lego,
depois deitado a meu lado,
ou meio suspenso em cima de mim.
Em seguida ameaçava-me se contasse a alguém.
Um dia fiquei suja sem perceber porquê.
Depois de ele se ir embora,
chorava em silêncio até adormecer de cansaço.
Não vale a pena falar mais nisto.
Só preciso explicar porque penso em ti quando recordo.
É que, na nossa noite do Meco, esqueci Newark.
Foi um sentimento tão intenso que não consigo descrevê-lo.
Não precisei fingir, como fazia com o Francisco.
Não necessitei fugir, como fiz com outros rapazes que se aproximaram de mim.

...

Como diria o meu pai
a vida é um dilema singelo,
ou se é bigorna ou se é martelo
e eu adaptei-me sempre a ser batida desde os seis anos.




por Pedro Strecht. 2002

A Mãe do Gonçalo era também uma pessoa deprimida, facto que sabemos ser muito importante para a depressão na criança: a depressão infantil pode ser entendida como um eco da decepção materna em relação a essa criança, como escreveu Teresa Ferreira. O filho mau era a projecção de toda a malignidade que esta mulher sentia dentro de si e que a impedia de tirar um gosto, um prazer na relação com a criança: «Sinto-me triste, tentei matar-me há um tempo. Também me fizeram muito mal a mim em criança. Quando o Gonçalo nasceu até me custava olhar para ele, pegar nele. Já corria tudo mal com o meu marido. O pai não gosta do Gonçalo, só lhe dá desprezo, parece que tem ciúmes.»
Buscando ajuda desde há dois anos, Mãe e filho pareciam no limiar de um desespero:
«A única coisa que têm dado ao Gonçalo é comprimidos para acalmar, mas ele está na mesma.»
Este «menino mau, encharcado em remédios» entra para a sala com um ar muito zangado. É um menino de cabelo escuro e despenteado. Senta-se em frente a mim, numa cadeira do outro lado da secretária, e não me olha. Com o lábio inferior puxado para a frente, sopra ar que lhe levanta uma franja: o tom é de grande frete. Só fixa a parede, e desvia o olhar mesmo nos breves momentos em que encontra o meu. Não diz nada, silêncio completo. Tento respeitar o seu silêncio e digo-lhe apenas:
«Eu sei que deves estar zangado com muitas coisas. Eu percebo-te, mas também acho que, se calhar, tens andado à procura de alguém que te compreenda nisso mesmo.»
Mais nada. Muito silêncio e o mesmo ar terrivelmente zangado.
Depois, os pés a baterem na secretária, ora mais mansos, ora mais fortes. Faço corresponder afectos a estes movimentos de pontapés, dizendo «agora mais devagar, está mais calminho... mais depressa, está muito zangado...»
Parece aceitar este jogo, até que de repente começa a bater com muita força, violento, como quem vai destruir a secretária. Levanto-me, seguro-lhe os pés e digo-lhe:
«Gonçalo, o que eu estava a dizer-te era que aqui vamos poder pensar nas tuas coisas. Dar pontapés é não-pensar.»

...

- o amor significa ser fruto de um acto feliz de criação de duas pessoas (Pai e Mãe); significa estar vivo, existir e ser amado por quem o originou; significa que todas as crianças possam nascer iguais em direitos; significa gostarmos de nós pela percepção primeira de que alguém gosta de nós;

- o amor significa ser cuidado, alimentado, tocado; significa ser reconhecido como um ser único; significa gostarmos de nós novamente, gostarmos dos Pais e voltar a sentir que eles gostam de nós;

...

- o amor significa gostar e saber cuidar de outros para além de nós, vivendo de forma criativa e adaptada ao que pensamos, sentimos (mundo interior), e ao que nos rodeia (realidade exterior); significa desejar para os outros o que foi bom para nós e emendar o que de mau achamos que nós próprios vivemos.




por Jorge Amado .1977

Elisa construíra pouco a pouco imaginário retrato da irmã, fada alegre, bela e bondosa, habitando um mundo rico e feliz. Nessa visão pensa e nela se apóia quando sonha com outra vida, mais além da pasmaceira e do cansaço. Morta Antonieta, que restará a Elisa? As revistas de fotonovelas, nada mais. Nem isso, meu Deus! Onde os níqueis, sobrados das despesas, com que comprá-las?
Tristeza por tudo quanto perderá, o dinheiro mensal, os presentes, o devaneio, o sonho, mas também tristeza simplesmente pela morte da irmã; gostará de alguém tanto quanto gosta dessa meia-irmã que não conhece? Reage, na necessidade de conservar pelo menos a esperança: Perpétua imagina sempre o pior, boca de agouro.

- Se ela tivesse morrido, a gente já tinha sabido, alguém havia de dar a notícia. Em casa dela tem nosso endereço, todo mês ela escreve, não é? Haviam de avisar... – há dois dias, na labuta da casa, na cama de insónia, repete esses argumentos para si mesma.









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