BERNARDA
É esse o destino das mulheres.
MADALENA
Malditas sejam as mulheres!
B.
Aqui só se faz o que eu mando.
Acabaram-se as queixas do teu pai.
Para as mulheres, linha e agulha.
Chicote e mula para os homens.
Assim vive a gente de posses.
(Adela sai.)
VOZ
Bernarda! Deixa-me sair daqui!
B.
(em voz alta)
Abre-lhe a porta.
(entra a Criada.)
CRIADA
Custou-me muito ter mão nela.
Apesar dos oitenta anos, a sua mãe é forte como um castanheiro.
B.
Tem a quem sair. Meu avô também era assim.
CRIADA
Durante o enterro tive de lhe tapar a boca várias vezes com um saco, porque não parava de gritar, a pedir que lhe desse ao menos água da esfrega para beber e carne de cão, que é o que ela diz que a senhora lhe dá.
MARTÍRIO
Tem maus instintos!
B. (para a Criada)
Deixa-a desabafar para o pátio.
CRIADA
Tirou do cofre os anéis e os brincos de ametista, pô-los e disse-me que se queria casar.
(As filhas riem.)
B.
Vai com ela, mas tem cuidado, não a deixes chegar-se ao poço.
CRIADA
Não tenha medo, que não se atira.
B.
Não é por isso...
É que naqueles sítios as vizinhas podem vê-la da janela.
(A Criada sai.)

Maria de Lurdes Norberto
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