Tuesday, 5 August 2014

Lorca











BERNARDA

É assim que se tem de falar neste maldito povo sem rio, terra de poços, onde se bebe sempre a água com medo que esteja envenenada.


LA PONCIA

Olha como ficou a soleira da porta!


B.

Pior do que se tivesse passado um rebanho de cabras. 
(La Poncia limpa o chão.)
Filha, dá-me um leque.


ADELA

Tome, mãe.
(Dá-lhe um leque redondo com flores vermelhas e verdes.)


B.

(atirando o leque para o chão)
É isto leque que se dê a uma viúva?! Vai buscar-me um leque negro e aprende a respeitar o luto de teu pai.


MARTÍRIO

Tome o meu.


B.

E tu?


MARTÍRIO

Não tenho calor.


B.

Pois arranja outro, que bem hás-de precisar. Porque nos oito anos que vai durar o luto não entrará nesta casa o vento da rua. Viveremos emparedadas, como se tivéssemos entaipado as portas e as janelas com tijolo. Assim aconteceu em casa de meu pai e em casa de meu avô. Durante esse tempo podereis bordar o enxoval. Tenho na arca vinte peças de linho para fazer os lençóis e as fronhas. A Madalena pode bordá-los.


MADALENA

Tanto se me dá.


ADELA

(azeda)
Se não quiseres, ficarão sem bordados.
Para os teus brilharem mais.


MADALENA

Nem os meus nem os vossos. Tenho a certeza de que não me caso. Prefiro acarretar sacos para o moinho. Tudo menos ficar sentada dias e dias nesta casa escura.


B.

É esse o destino das mulheres.






A World I Never Left






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