Ao contrário
do egoísmo, o egocentrismo não exclui a generosidade. A criança egocêntrica nem
pensa em ser generosa porque não está virada para os outros; mas se o educador
lhe abrir os olhos para o mundo humano, a generosidade natural da criança
começa a manifestar-se logo vivamente. Pelo contrário, a criança ou o
adolescente egoísta (ou o adulto egoísta) recusa-se deliberadamente a todo o
acto generoso que lhe sugiram, mesmo tendo consciência de poder fazer algum
bem. O egocêntrico nem pensa em sair de si mesmo; o egoísta recusa-se a tal.
A atitude do
educador consistirá, portanto, em facilitar no plano social a passagem do
egocentrismo ao altruismo, e no plano intelectual a passagem do subjectivismo
ao ponto de vista objectivo. O educador favorecerá esta evolução normal, facultando
à criança muitos contactos com outras crianças de todas as idades e também com
a natureza, o mundo vegetal e animal. É preciso ajudá-la a descobrir as
relações, que ela desconhece, entre pessoas e coisas. E isso não se fará sem
alguns arranhões! Do mesmo modo que o bebé não compreende que o fogo queima
enquanto não sentir ele próprio a queimadura, assim também, para descobrir a
atitude social que deve tomar, a criança tem de chocar com os camaradas e com
os adultos, tem de encontrar diante de si a vontade dos outros, as suas
necessidades, as suas misérias; a sua brutalidade ou a sua bondade.
Há que
favorecer esta descoberta do mundo material e humano, que a pouco e pouco fará
sair a criança de si mesma. A regressão do egocentrismo é natural; devemos
contudo ter cuidado em a facilitar, porque o ambiente actual poderá não lhe ser
propício.
Guy Jacquin
Comer e
continuar com fome – o homem nunca conseguiu essa façanha. O problema da
saciedade. É esse mesmo. Possuir algo e manter o preciso limite de carência do
apetite perante a mesa farta. Era esse o seu problema, pois eles amavam o Amor.
...
Também não
eram pequenos e inexperientes passarinhos a teorizar sobre o limiar do Amor.
Eram almas robustas e completas. Já tinham sentido amor, por outros, antes de
se conhecerem; e nesses tempos tinham sufocado o Amor com carícias, tinham-no
morto com beijos e tinham-no sepultado no túmulo da saciedade.
Jack London
OLHOS
É fácil desenhar olhos que divagam
Pelo quadro
todo
Mas só até
ao instante em que se tornam
Os que vão à
proa do barco
Olho do
piloto fito
No real
Atento
À rota nunca
recta
Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo.
Nada trazem consigo, pois partiram
Só e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.
Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.
Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala pra auscultar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.
É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua a noite e a sua fome,
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço
Que deixam pela areia, passo a passo.
Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
É-lhes estranho até o próprio rastro.
Nenhum jardim, nenhum olhar os prende,
Intactos nas paisagens onde chegam
Só encontram o longe que se afasta,
As aves estrangeiras que os trespassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.
Sophia de Mello Breyner Andresen
dentro do
corpo real os ossos
cruzados o
sol nasce
verdadeiro
máximo imediato
quentes os
montes as veias os rios
os ares
campos inflamados
esgotados
acordaram nus
jardins
vermelhos cordas do oriente
rude longo iluminado
gruta rouca
dos herdeiros herdade nova
palavra do
que esperaram incendiados
incomparável
repleta e calma planície início
estado da
revolução sem data
porque permaneceram
porque permaneceram
No comments:
Post a Comment