Monday, 18 August 2014

“Love’s waiting time”






Ao contrário do egoísmo, o egocentrismo não exclui a generosidade. A criança egocêntrica nem pensa em ser generosa porque não está virada para os outros; mas se o educador lhe abrir os olhos para o mundo humano, a generosidade natural da criança começa a manifestar-se logo vivamente. Pelo contrário, a criança ou o adolescente egoísta (ou o adulto egoísta) recusa-se deliberadamente a todo o acto generoso que lhe sugiram, mesmo tendo consciência de poder fazer algum bem. O egocêntrico nem pensa em sair de si mesmo; o egoísta recusa-se a tal.



A atitude do educador consistirá, portanto, em facilitar no plano social a passagem do egocentrismo ao altruismo, e no plano intelectual a passagem do subjectivismo ao ponto de vista objectivo. O educador favorecerá esta evolução normal, facultando à criança muitos contactos com outras crianças de todas as idades e também com a natureza, o mundo vegetal e animal. É preciso ajudá-la a descobrir as relações, que ela desconhece, entre pessoas e coisas. E isso não se fará sem alguns arranhões! Do mesmo modo que o bebé não compreende que o fogo queima enquanto não sentir ele próprio a queimadura, assim também, para descobrir a atitude social que deve tomar, a criança tem de chocar com os camaradas e com os adultos, tem de encontrar diante de si a vontade dos outros, as suas necessidades, as suas misérias; a sua brutalidade ou a sua bondade.



Há que favorecer esta descoberta do mundo material e humano, que a pouco e pouco fará sair a criança de si mesma. A regressão do egocentrismo é natural; devemos contudo ter cuidado em a facilitar, porque o ambiente actual poderá não lhe ser propício.

Guy Jacquin




Comer e continuar com fome – o homem nunca conseguiu essa façanha. O problema da saciedade. É esse mesmo. Possuir algo e manter o preciso limite de carência do apetite perante a mesa farta. Era esse o seu problema, pois eles amavam o Amor.
...
Também não eram pequenos e inexperientes passarinhos a teorizar sobre o limiar do Amor. Eram almas robustas e completas. Já tinham sentido amor, por outros, antes de se conhecerem; e nesses tempos tinham sufocado o Amor com carícias, tinham-no morto com beijos e tinham-no sepultado no túmulo da saciedade.

Jack London




OLHOS

É fácil desenhar olhos que divagam
Pelo quadro todo
Mas só até ao instante em que se tornam
Os que vão à proa do barco

Olho do piloto fito
No real
Atento
À rota nunca recta



Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo.
Nada trazem consigo, pois partiram
Só e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.

Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.

Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala pra auscultar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.

É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua a noite e a sua fome,
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço
Que deixam pela areia, passo a passo.

Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
É-lhes estranho até o próprio rastro.

Nenhum jardim, nenhum olhar os prende,
Intactos nas paisagens onde chegam
Só encontram o longe que se afasta,
As aves estrangeiras que os trespassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.

Sophia de Mello Breyner Andresen





dentro do corpo real os ossos
cruzados o sol nasce
verdadeiro máximo imediato
quentes os montes as veias os rios
os ares campos inflamados
esgotados acordaram nus
jardins vermelhos cordas do oriente
rude longo iluminado
gruta rouca dos herdeiros herdade nova
palavra do que esperaram incendiados
incomparável repleta e calma planície início
estado da revolução sem data
porque permaneceram




fé esperança caridade
coragem paciência dedicação












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