O BARÃO
(rindo às gargalhadas)
Ora vamos lá ver, Nástia!
Mas, se bem me lembro, outro dia ele era Gastão.
NÁSTIA
(levantando-se de repente)
Calem-se gente miserável! Ah! Não sois mais que cães vagabundos!... Poderão vocês compreender... o amor? O verdadeiro amor? Eu sim, já o tive!...
(para o Barão)
E tu, miserável!... Tu, que és um homem instruído... E dizes tu que bebias o teu café na cama!...
LUCA
Vamos lá, vocês, não se metam com ela! Não a devem interromper. Sejam delicados. Não é aquilo que se diz que importa, mas a razão por que se diz. Vamos, conta, minha filha, conta a tua história.
BUBNOV
Continua lá a pintura das tuas penas, minha pega, vá.
O BARÃO
Vá. Continua.
NATACHA
Não lhes ligues importância. O que eles têm é inveja... Como nada têm a contar da sua vida...
NÁSTIA
(tornando a sentar-se)
Não! Já não quero! Não falo mais!...
Riem-se de mim, não me acreditam.
(de repente cala-se e, depois de uma curta pausa, fecha os olhos de novo e continua, com calor, em voz alta, agitando os braços na cadência do discurso,
como se ouvisse uma música ao longe.)
Então respondo-lhe: «Alegria da minha vida, estrela da minha vida, mas também a mim é impossível viver sem ti, nesta terra. Porque te amo loucamente e sempre te amarei enquanto o coração bater no meu peito!... Mas», digo-lhe, «não percas a tua jovem existência... Se ela é tão necessária aos tus queridos pais, para quem és toda a alegria... então deixa-me... que me perca eu, de preferência eu, padecendo por ti... minha vida... Eu só... sim, sou assim... que me perca... que importa! Não tenho ninguém! Não sirvo para nada!... E nada me é mais... nada me é mais...»
(cobre a cara com as mãos e chora em silêncio.)
NATACHA
(voltando-se e em voz baixa)
Não chores, não é preciso...
(Luca, com um sorriso, acaricia os cabelos de Nástia.)
BUBNOV
(rindo às gargalhadas)
Ah! Que estúpida rapariga!
O BARÃO
(rindo também)
Eh! Avô, julgas porventura que tudo isto aconteceu? É tirado daquele livreco, Amor Fatal... Parvoíces, tudo isso...
Deixa-a...
NATACHA
E que mal isso te faz? Cala-te; já desceste tão baixo que nem contas!
NÁSTIA
(furiosa)
Alma perdida! Cesto furado Onde está a tua alma?
LUCA
(levando-a pelo braço)
Vamo-nos embora, minha filha! Deixa-os. Não te deves zangar!... Eu sei e acredito... A verdade está contigo, e não com eles. Se sabes bem que tiveste o verdadeiro amor, então é porque o tiveste... Sim, tiveste... E não te zangues contra o teu companheiro, o Barão... Talvez seja por ciúmes que ele se ri... Talvez nunca tivesse tido nada de real, de verdadeiro, na sua vida... Vamos, vamos embora!
NÁSTIA
(apertando as mãos contra o coração)
Avôzinho! Juro-te que isto aconteceu! Tudo aconteceu!... Era um estudante... um francês... Chamavam-no o Gastãozinho... com uma barbinha negra... sapatos envernizados... Sim, que um raio me parta, aqui, já, se não é verdade! E amava-me. Oh! Como me amava!...
LUCA
Eu sei, acredito... Então com os sapatos envernizados, dizes tu? Vejam lá! E tu também gostavas muito dele?...
(Desaparecem ambos na volta da esquina.)
O BARÃO
Esta rapariga é estúpida!... É boa, mas insuportavelmente estúpida.
BUBNOV
E por que razão este homem gosta tanto de mentir? Até parece que está sempre diante de um juiz.
NATACHA
A mentira é mais agradável do que a verdade, parece... Eu também...
O BARÃO
Bem, vou-me embora.
NATACHA
Tenho de imaginar coisas... Invento e espero...
O BARÃO
Para quê?
Valerie
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