Wednesday, 20 August 2014

Paixão






cap. 1
há quase seis meses que estou livre
estar viva
seis anos de vida
espero poder apagar
cicatriz no ventre
para aproximar o leitor à minha experiência e fazê-lo compreender as dificuldades que sofri e superei e, em suma, para que a leitura deste livro lhe semeie a inquietação no coração


cap. 2
a sua existência, a sua prudência, a sua coragem, a sua sabedoria, a sua energia e a sua imensa generosidade
“Se a minha filha teve um filho na selva quero tê-lo nos meus braços”
a única coisa que queria era estar sozinha com a minha mãe
“Aconteça o que acontecer, aqui estou à espera de ambos para os abraçar”


cap. 3
aquela decisão, para quem entenda a tomada de decisões, não devia ter sido tomada emocionalmente tal como não devia ter sido uma demonstração de absurda valentia.
éramos duas mulheres, civis, sem nenhuma espécie de treino militar e queríamos enfrentar um exército irregular que mantém o país numa encruzilhada há mais de 40 anos
no cativeiro, demonstrámos mais brio, disciplina e coragem do que muitos dos outros sequestrados, incluindo militares e polícias


cap. 4
quando foi eleito, ela tinha sido uma das senadoras que tinha percorrido o país a pedir votos para ele
sem explicação alguma, vimos uma data de gente a entrar nos helicópteros que restavam, que descolaram, deixando-nos para trás, apesar de, à chegada, nos terem dito que teríamos lugar em algum deles
se a atitude do presidente, nesse dia, tivesse sido outra, muito provavelmente não teríamos sido sequestrados, pois teríamos viajado de helicóptero e teríamos regressado a Florencia e a Bogotá nessa mesma noite
não com uma operação militar de resgate, como a que ordenou poucos dias após estarmos na selva e em que morreram alguns soldados do exército, mas através de um acordo ou de uma solução negociada


cap. 5
o jovem, suado e em grande agitação, regressou a correr
pouco depois voltou e mandou-nos segui-lo devagar
um penetrante cheiro a gasolina
onde encontrámos uns homens em uniforme e armados que rodearam o nosso carro
estavam muito tensos
nesse momento ouvimos uma forte detonação que vinha de muito perto e que atingiu um dos homens que estava ao lado da nossa janela, porque de repente vi que tinha a cara ensaguentada
um dos guerrilheiros começou a gritar desesperadamente “Rápido, um hospital!” Meteram o ferido na parte de trás da nossa carrinha, e entrou também o homem que nos tinha guiado até ali, que começou a dizer ao motorista por onde devia ir
entretanto o homem ferido não parava de gritar
encontrámos muitos carros estacionados e um grupo grande de homens armados, suados, nervosos e mal encarados
La Unión Pinilla. Era um lugar tranquilo e agradável. Viam-se alguns habitantes sentados em cadeiras de baloiço, nas varandas. Todos nos viram passar, mas ninguém disse nada.
O dono do local aproximou-se e ofereceu-nos gasosas.
Saímos da aldeia como se nada tivesse acontecido, os aldeões, sentados tranquilamente nas suas cadeiras de baloiço, ficaram imutáveis e limitaram-se a ver passar o veículo sem dizer uma palavra.
O comandante a única coisa que nos disse foi que não nos restava outro remédio senão encarar esta experiência.
Fomos recebidas por uma comandante feminina que nos estendeu a mão. Surpreendeu-me que fosse amável ao ponto de nos cumprimentar, e também a força com que nos apertou a mão, pareceu-me que me arrancava o braço.
A comandante Mary Luz aproximou-se de nós, acompanhada por outras mulheres, perguntou-nos como estávamos e começou a fazer perguntas a Ingrid sobre o seu projecto político.
apesar de a televisão ser a cores, só se via a preto e branco. Nos títulos não houve uma única palavra sobre nós as duas. Deram a notícia da visita do Presidente da República a San Vicente del Caguán, afirmando que o controlo do município já tinha sido recuperado.
somente uma tábua com um colchão muito fino
Não me atrevia a mexer-me porque tudo me assustava, a escuridão, e a proximidade com aqueles homens doentes, mas, ainda assim, com as armas ao ombro.

apareceu uma guerrilheira ainda menina
a perguntar se queria beber alguma coisa.


cap. 6
o comandante que nessa altura estava encarregado de nos vigiar, fazia os possíveis por, de vez em quando, nos lembrar que estávamos na selva. E, uma manhã, chegou ao acampamento com uma cabeça de tigre ensaguentada.
vimo-lo usar, ao pescoço, um colar de onde pendiam os dentes que tinham acabado de extrair à fera.
e o comandante disse-me, bruscamente, como era habitual nele, que tinha de deixar de nadar no rio: “Para este tipo de cobras você é, apenas, um aperitivo!”
“Mas se o comesse a si, que é gordo, ficava cheia, não é verdade?”
É curioso, ontem levei o meu filho, Emmanuel, a ver um espectáculo musical para crianças, em que os protagonistas tinham de atravessar um bosque encantado e umas águas pestilentas. E é incrível como tudo o que parece fantasia e brincadeira no conto, era completamente real na selva. E é, justamente, daí que eu e ele viemos, da selva escura e inóspita.


cap. 7
estamos frente a nós próprios
em liberdade, tudo é alegria


cap. 8
todos eles estão acostumados a pensar que a única existência possível e o único futuro reside nas FARC
pessoas com poucos laços familiares
o meu primeiro pensamento era sempre para a minha mãe, recordava os seus ensinamentos


cap. 9
assumi o cativeiro com honestidade, entendida como o sentido de decência e de decoro, do razoável e do justo
pela maneira como tinha sido educada
esta atitude, em primeiro lugar, perante mim mesma
mas também perante a minha amiga
esta actuação deu-me tranquilidade de consciência e creio que facilita espaço para a reconciliação


cap. 10
o meu pai
bom amigo dos seus amigos
vamos com os amigos até ao cemitério, mas não nos enterramos com eles


cap. 11
Simão Bolívar, o Libertador
deseja intensamente
estavam encantados por nos terem como prisioneiras porque isso lhes dava um certo prestígio dentro do seu próprio grupo armado
horas de vantagem antes de perceberem que tínhamos fugido e de nos começarem a procurar
depois de um mês em cativeiro considerámo-nos, por fim, preparadas para o grande momento. Já tínhamos uma corda, uma lanterna, pilhas suplentes, três sanduíches para cada uma e, até, um queijo
aterrava-me a ideia de roubar um aos guerrilheiros
iluminava toda a selva, marcámos a fuga para a noite seguinte
o barulho ensurdecedor da chuva dava-nos a oportunidade certa para escaparmos sem que nos ouvissem, por isso decidimos levar avante os nossos planos
“fugirem? podiam ter morrido”
no final da tarde transferiram-nos
Creio que o que nos aterrorizou foi aquele barulho de animal que não conseguimos identificar. Também é verdade que foi duro enfrentar, ao mesmo tempo, a noite, a chuva e a escuridão, no meio da selva, sem sabermos onde estávamos nem para onde íamos.
a minha atitude para com Ingrid começou a mudar. Irritou-me que, na segunda tentativa de fuga, se tivesse descontrolado, em pleno dia, por causa de um enxame de abelhas.
o pai de Ingrid tinha morrido
um esforço para se manter viva, pelos filhos
morte do meu pai, um ano antes
Ingrid afundou-se
mal falávamos uma com a outra, quase nem nos cumprimentávamos. Líamos, simplesmente, a Bíblia e comentávamos o que tínhamos lido, mas quando acabávamos, não havia mais nada que quiséssemos dizer uma à outra.


cap. 12
aquela dor mal digerida criou entre nós uma barreira de silêncio
dois estranhos sem nada em comum


cap. 13
tinha o meu próprio espaço e isso proporcionava-me uma certa calma
ia buscar o café
ler
caminhava
rezar o rosário
reflectir sobre todo o género de assuntos
quando recuperasse a liberdade
lavava a loiça
escovava os dentes
descansava
bordava
nadar
sentia-me totalmente livre, e olhava o céu, com os braços abertos para me manter a flutuar


cap. 14
O que é que me motiva a fazer esta greve? Sentia uma profunda necessidade de me aproximar de Deus. Tinha, em termos bíblicos, a necessidade de Lhe agradar, de Lhe pedir atenção, clemência, protecção e guia.
devia aprender com aquela experiência amarga, tirar dali um ensinamento sobre a minha própria evolução como ser humano.
Com a greve de fome conseguia várias coisas: reforçar a minha força de vontade e, também, exercitar o desprendimento, o desapego às coisas materiais. E, em termos mais práticos, arranjava um verdadeiro problema aos comandantes, porque eles tinham ordens para não me deixarem morrer de fome.
viam-no como um acto de rebeldia contra eles
desacato que alterava as suas normas
tinham de respeitar a religião e os credos dos reféns
apresentava o jejum como uma prática religiosa que eles deviam respeitar, coisa que acabavam por fazer a contra gosto
continuavam a enviar-me a comida, para que ninguém os pudesse acusar
quando já estava com os outros reféns, notei que o facto de jejuar aumentava neles o respeito que sentiam por mim. E a mesma coisa se passou com os guerrilheiros, para quem a comida era essencial. Eu tinha consciência que a minha atitude tinha um enorme impacto em todos eles. Inclusivamente, agora em liberdade, vários prelados da Igreja Católica me têm manifestado a sua admiração pela minha atitude de renúncia, justamente em cativeiro, onde, por si só, tudo é muito mais difícil.
no fundo da minha alma, sinto que fiz o que o meu coração me mandava e todos esses esforços me ajudaram a fortalecer a minha fé que é, em suma, o mais valioso.


cap. 15
quando se tem algum tipo de luz no coração há que usá-la, também, para alumiar o caminho dos outros
eu cantava à Virgem: “Enquanto percorres a vida tu nunca estás só, luta por um mundo novo, luta pela verdade. Vem caminhar connosco, Santa Maria, vem. Vem, caminhar connosco”. A outra canção de que gostava era: “Jesus Cristo deixou-me inquieta, a Sua palavra encheu-me de luz. Não mais pude voltar a ver o mundo sem sentir o que sentiu Jesus.”
Sei que os militares que estavam sequestrados no mesmo acampamento que nós, gostavam de me ouvir cantar porque isso os fazia sentir menos sós. E os guerrilheiros, de uma maneira geral, não me diziam nada. Naturalmente, havia sempre alguém que não gostava e, uma vez, até me assobiaram, mas passou-lhes.
“Se Deus existisse, pode ter a certeza de que não estaria cativa como está.”


cap. 16
ser criativo e deitar mão aos poucos recursos de que se possa dispor, sejam eles mentais ou materiais
controlar a incerteza
a minha tendência para ser demasiado confiante e optimista
A prisão e a limitação de movimentos gera ansiedade
fumar, a comerem demais ou a caírem noutra coisa igualmente nociva, o sedentarismo


cap. 17
copiava e resumia passagens da Bíblia
os lavores eram terapêuticos para a minha saúde mental. Tal é a concentração que requerem que não deixam que o pessimismo se apodere da nossa mente.
horas e horas sem nada para fazer, e isso favorecia conversas que, com frequência, acabavam por se converter em críticas e intrigas, um mero diz-que-disse contra as outras pessoas do acampamento. Como dizemos na Colômbia, pueblo pequeño, infierno grande.
“Olhe, Clara, é melhor ler mentalmente porque essa gente anda a chatear muito.”
Cortava o cabelo de dois em dois meses, e isso ajudava-me a passar o tempo e, sobretudo, mantinha em alta a minha auto-estima.
Gostei muito, porque nas noites escuras aquilo permitia-me ver as mãos. E também pensei que num desenlace trágico, aquele verniz tão chamativo facilitaria a identificação do nosso corpo.


cap. 18
Falou-se de drama, de história de amor.
A minha avó era uma mulher de raca-mandaca, como se diz coloquialmente, na Colômbia, das mulheres que se caracterizam pelo seu carácter, arrojo e decisão.
só nos mandavam pegar nas nossas coisas e segui-los
estava à beira de fazer 40 anos e sendo esta a minha primeira gravidez
ela já tinha tido três filhos
“Bem vinda ao clube!”
“Algum de vocês é o pai?” e eles começaram a responder, uns a seguir aos outros, que não.
Não me deram uma única oportunidade para poder confiar nelas, coisa que eu teria agradecido.
Decidi não lhes pedir nada.
À noite, falava baixinho com o meu bebé, tentando pensar nas coisas mais bonitas que conseguia.
















































Sua Majestade já começou a trazer almas boas àquela casa
e as cinco irmãs que ficaram das que levei comigo
já vos disse como eram boas
quero falar da primeira que ali entrou
por ser coisa que haveis que gostar
sendo ela de muito pouca idade, sete anos, talvez, uma tia que não tinha filhos
pediu-a à mãe para tê-la consigo
Levando-a para casa
deve ter-lhe dado muitos mimos e mostras de amor,
como era de razão, e as criadas, que antes de a menina ir para sua casa, deviam ter alimentado a esperança de vir a herdar a sua fazenda, vendo que se lhe cobrasse amor, havia de querer deixar tudo à pequena, combinaram afastar a ocasião por meio dum plano diabólico. E, assim, acusaram a jovem de querer matar a tia, afirmando que, com esse fim, dera a uma delas não sei quantos maravedis, para que lhe trouxesse sublimado corrosivo. Disseram-no à tia e, como todas diziam o mesmo, acreditou, assim como a mãe da pequena que é mulher muito virtuosa.
Esta leva logo a criança para sua casa, parecendo-lhe que nela se estava criando uma mulher muito má. Disse-me a Beatriz da Madre de Deus, que assim se chama agora, que durante mais de um ano a mãe a açoitava e atormentava todos os dias, fazendo-a dormir no chão, para que lhe confessasse tão grande culpa. A pequena dizia que não havia feito tal coisa, não sabendo sequer o que era sublimado. E a pobre mãe afligia-se muito e ainda a julgava pior por vê-la tão teimosa e com ânimo para o encobrir, parecendo-lhe que nunca se emendaria. Grande coisa foi não ter a criança acabado por acusar-se, só para se livrar de tantos tormentos; mas, como estava inocente, deu-lhe Deus a força de dizer sempre a verdade. E, como Sua Majestade acode pelos que estão sem culpa, deu tão grande mal a duas daquelas mulheres, que pareciam atacadas de raiva; em segredo, rogaram à tia que fizesse vir a menina, pedindo-lhe perdão e, vendo-se às portas da morte, desdisseram-se; outro tanto fez a terceira que morreu de parto.

Quando chegou à idade de poderem casá-la, mas sendo ainda muito jovem, arranjaram-lhe os pais um casamento.
mas, quando lho disseram, declarou o voto que tinha feito de não casar e que de modo nenhum o faria, ainda que a matassem
como já tinham dado a palavra e viam o noivo afrontado, açoitaram-na tanto e a maltrataram a ponto de até mesmo a quererem enforcar, chegando a apertar-lhe o pescoço; só por acaso não a mataram. Deus, que para mais a queria, conservou-lhe a vida.

Teresa de Ahumada
Fundação de Sevilha, 1575


















Clara Rojas







No comments:

Post a Comment