cap.
1
há
quase seis meses que estou livre
estar
viva
seis
anos de vida
espero
poder apagar
cicatriz
no ventre
para
aproximar o leitor à minha experiência e fazê-lo compreender as dificuldades
que sofri e superei e, em suma, para que a leitura deste livro lhe semeie a
inquietação no coração
cap.
2
a sua existência, a sua prudência, a sua
coragem, a sua sabedoria, a sua energia e a sua imensa generosidade
“Se
a minha filha teve um filho na selva quero tê-lo nos meus braços”
a
única coisa que queria era estar sozinha com a minha mãe
“Aconteça
o que acontecer, aqui estou à espera de ambos para os abraçar”
cap.
3
aquela
decisão, para quem entenda a tomada de decisões, não devia ter sido tomada
emocionalmente tal como não devia ter sido uma demonstração de absurda valentia.
éramos
duas mulheres, civis, sem nenhuma espécie de treino militar e queríamos
enfrentar um exército irregular que mantém o país numa encruzilhada há mais de
40 anos
no
cativeiro, demonstrámos mais brio, disciplina e coragem do que muitos dos
outros sequestrados, incluindo militares e polícias
cap.
4
quando
foi eleito, ela tinha sido uma das senadoras que tinha percorrido o país a
pedir votos para ele
sem
explicação alguma, vimos uma data de gente a entrar nos helicópteros que
restavam, que descolaram, deixando-nos para trás, apesar de, à chegada, nos
terem dito que teríamos lugar em algum deles
se
a atitude do presidente, nesse dia, tivesse sido outra, muito provavelmente não
teríamos sido sequestrados, pois teríamos viajado de helicóptero e teríamos
regressado a Florencia e a Bogotá nessa mesma noite
não
com uma operação militar de resgate, como a que ordenou poucos dias após
estarmos na selva e em que morreram alguns soldados do exército, mas através de
um acordo ou de uma solução negociada
cap.
5
o
jovem, suado e em grande agitação, regressou a correr
pouco
depois voltou e mandou-nos segui-lo devagar
um
penetrante cheiro a gasolina
onde
encontrámos uns homens em uniforme e armados que rodearam o nosso carro
estavam
muito tensos
nesse
momento ouvimos uma forte detonação que vinha de muito perto e que atingiu um
dos homens que estava ao lado da nossa janela, porque de repente vi que tinha a
cara ensaguentada
um
dos guerrilheiros começou a gritar desesperadamente “Rápido, um hospital!” Meteram
o ferido na parte de trás da nossa carrinha, e entrou também o homem que nos
tinha guiado até ali, que começou a dizer ao motorista por onde devia ir
entretanto
o homem ferido não parava de gritar
encontrámos
muitos carros estacionados e um grupo grande de homens armados, suados,
nervosos e mal encarados
La
Unión Pinilla. Era um lugar tranquilo e agradável. Viam-se alguns habitantes
sentados em cadeiras de baloiço, nas varandas. Todos nos viram passar, mas
ninguém disse nada.
O
dono do local aproximou-se e ofereceu-nos gasosas.
Saímos
da aldeia como se nada tivesse acontecido, os aldeões, sentados tranquilamente
nas suas cadeiras de baloiço, ficaram imutáveis e limitaram-se a ver passar o
veículo sem dizer uma palavra.
O
comandante a única coisa que nos disse foi que não nos restava outro remédio
senão encarar esta experiência.
Fomos
recebidas por uma comandante feminina que nos estendeu a mão. Surpreendeu-me
que fosse amável ao ponto de nos cumprimentar, e também a força com que nos
apertou a mão, pareceu-me que me arrancava o braço.
A
comandante Mary Luz aproximou-se de nós, acompanhada por outras mulheres,
perguntou-nos como estávamos e começou a fazer perguntas a Ingrid sobre o seu
projecto político.
apesar
de a televisão ser a cores, só se via a preto e branco. Nos títulos não houve
uma única palavra sobre nós as duas. Deram a notícia da visita do Presidente da
República a San Vicente del Caguán, afirmando que o controlo do município já
tinha sido recuperado.
somente
uma tábua com um colchão muito fino
Não
me atrevia a mexer-me porque tudo me assustava, a escuridão, e a proximidade
com aqueles homens doentes, mas, ainda assim, com as armas ao ombro.
apareceu
uma guerrilheira ainda menina
a perguntar se queria beber alguma coisa.
cap.
6
o comandante
que nessa altura estava encarregado de nos vigiar, fazia os possíveis por, de
vez em quando, nos lembrar que estávamos na selva. E, uma manhã, chegou ao
acampamento com uma cabeça de tigre ensaguentada.
vimo-lo
usar, ao pescoço, um colar de onde pendiam os dentes que tinham acabado de
extrair à fera.
e o
comandante disse-me, bruscamente, como era habitual nele, que tinha de deixar
de nadar no rio: “Para este tipo de cobras você é, apenas, um aperitivo!”
“Mas
se o comesse a si, que é gordo, ficava cheia, não é verdade?”
É
curioso, ontem levei o meu filho, Emmanuel, a ver um espectáculo musical para
crianças, em que os protagonistas tinham de atravessar um bosque encantado e
umas águas pestilentas. E é incrível como tudo o que parece fantasia e brincadeira
no conto, era completamente real na selva. E é, justamente, daí que eu e ele
viemos, da selva escura e inóspita.
cap.
7
estamos
frente a nós próprios
em
liberdade, tudo é alegria
cap.
8
todos
eles estão acostumados a pensar que a única existência possível e o único
futuro reside nas FARC
pessoas
com poucos laços familiares
o
meu primeiro pensamento era sempre para a minha mãe, recordava os seus
ensinamentos
cap.
9
assumi
o cativeiro com honestidade, entendida como o sentido de decência e de decoro,
do razoável e do justo
pela
maneira como tinha sido educada
esta
atitude, em primeiro lugar, perante mim mesma
mas
também perante a minha amiga
esta
actuação deu-me tranquilidade de consciência e creio que facilita espaço para a
reconciliação
cap.
10
o
meu pai
bom
amigo dos seus amigos
vamos
com os amigos até ao cemitério, mas não nos enterramos com eles
cap.
11
Simão
Bolívar, o Libertador
deseja
intensamente
estavam
encantados por nos terem como prisioneiras porque isso lhes dava um certo
prestígio dentro do seu próprio grupo armado
horas
de vantagem antes de perceberem que tínhamos fugido e de nos começarem a
procurar
depois
de um mês em cativeiro considerámo-nos, por fim, preparadas para o grande
momento. Já tínhamos uma corda, uma lanterna, pilhas suplentes, três sanduíches
para cada uma e, até, um queijo
aterrava-me
a ideia de roubar um aos guerrilheiros
iluminava
toda a selva, marcámos a fuga para a noite seguinte
o
barulho ensurdecedor da chuva dava-nos a oportunidade certa para escaparmos sem
que nos ouvissem, por isso decidimos levar avante os nossos planos
“fugirem?
podiam ter morrido”
no
final da tarde transferiram-nos
Creio
que o que nos aterrorizou foi aquele barulho de animal que não conseguimos
identificar. Também é verdade que foi duro enfrentar, ao mesmo tempo, a noite,
a chuva e a escuridão, no meio da selva, sem sabermos onde estávamos nem para
onde íamos.
a
minha atitude para com Ingrid começou a mudar. Irritou-me que, na segunda
tentativa de fuga, se tivesse descontrolado, em pleno dia, por causa de um
enxame de abelhas.
o
pai de Ingrid tinha morrido
um
esforço para se manter viva, pelos filhos
morte
do meu pai, um ano antes
Ingrid
afundou-se
mal
falávamos uma com a outra, quase nem nos cumprimentávamos. Líamos,
simplesmente, a Bíblia e comentávamos o que tínhamos lido, mas quando
acabávamos, não havia mais nada que quiséssemos dizer uma à outra.
cap.
12
aquela
dor mal digerida criou entre nós uma barreira de silêncio
dois
estranhos sem nada em comum
cap.
13
tinha
o meu próprio espaço e isso proporcionava-me uma certa calma
ia
buscar o café
ler
caminhava
rezar
o rosário
reflectir
sobre todo o género de assuntos
quando
recuperasse a liberdade
lavava
a loiça
escovava
os dentes
descansava
bordava
nadar
sentia-me
totalmente livre, e olhava o céu, com os braços abertos para me manter a
flutuar
cap.
14
O
que é que me motiva a fazer esta greve? Sentia uma profunda necessidade de me
aproximar de Deus. Tinha, em termos bíblicos, a necessidade de Lhe agradar, de
Lhe pedir atenção, clemência, protecção e guia.
devia
aprender com aquela experiência amarga, tirar dali um ensinamento sobre a minha
própria evolução como ser humano.
Com
a greve de fome conseguia várias coisas: reforçar a minha força de vontade e,
também, exercitar o desprendimento, o desapego às coisas materiais. E, em
termos mais práticos, arranjava um verdadeiro problema aos comandantes, porque
eles tinham ordens para não me deixarem morrer de fome.
viam-no
como um acto de rebeldia contra eles
desacato
que alterava as suas normas
tinham
de respeitar a religião e os credos dos reféns
apresentava
o jejum como uma prática religiosa que eles deviam respeitar, coisa que
acabavam por fazer a contra gosto
continuavam
a enviar-me a comida, para que ninguém os pudesse acusar
quando
já estava com os outros reféns, notei que o facto de jejuar aumentava neles o
respeito que sentiam por mim. E a mesma coisa se passou com os guerrilheiros,
para quem a comida era essencial. Eu tinha consciência que a minha atitude
tinha um enorme impacto em todos eles. Inclusivamente, agora em liberdade,
vários prelados da Igreja Católica me têm manifestado a sua admiração pela
minha atitude de renúncia, justamente em cativeiro, onde, por si só, tudo é
muito mais difícil.
no
fundo da minha alma, sinto que fiz o que o meu coração me mandava e todos esses
esforços me ajudaram a fortalecer a minha fé que é, em suma, o mais valioso.
cap.
15
quando
se tem algum tipo de luz no coração há que usá-la, também, para alumiar o
caminho dos outros
eu
cantava à Virgem: “Enquanto percorres a vida tu nunca estás só, luta por um
mundo novo, luta pela verdade. Vem caminhar connosco, Santa Maria, vem. Vem,
caminhar connosco”. A outra canção de que gostava era: “Jesus Cristo deixou-me
inquieta, a Sua palavra encheu-me de luz.
Não mais pude voltar a ver o mundo
sem sentir o que sentiu Jesus.”
Sei
que os militares que estavam sequestrados no mesmo acampamento que nós,
gostavam de me ouvir cantar porque isso os fazia sentir menos sós. E os
guerrilheiros, de uma maneira geral, não me diziam nada. Naturalmente, havia
sempre alguém que não gostava e, uma vez, até me assobiaram, mas passou-lhes.
“Se
Deus existisse, pode ter a certeza de que não estaria cativa como está.”
cap.
16
ser
criativo e deitar mão aos poucos recursos de que se possa dispor, sejam eles
mentais ou materiais
controlar
a incerteza
a
minha tendência para ser demasiado confiante e optimista
A
prisão e a limitação de movimentos gera ansiedade
fumar,
a comerem demais ou a caírem noutra coisa igualmente nociva, o sedentarismo
cap.
17
copiava
e resumia passagens da Bíblia
os
lavores eram terapêuticos para a minha saúde mental. Tal é a concentração que
requerem que não deixam que o pessimismo se apodere da nossa mente.
horas
e horas sem nada para fazer, e isso favorecia conversas que, com frequência,
acabavam por se converter em críticas e intrigas, um mero diz-que-disse contra
as outras pessoas do acampamento. Como dizemos na Colômbia, pueblo pequeño, infierno grande.
“Olhe,
Clara, é melhor ler mentalmente porque essa gente anda a chatear muito.”
Cortava
o cabelo de dois em dois meses, e isso ajudava-me a passar o tempo e,
sobretudo, mantinha em alta a minha auto-estima.
Gostei
muito, porque nas noites escuras aquilo permitia-me ver as mãos. E também
pensei que num desenlace trágico, aquele verniz tão chamativo facilitaria a
identificação do nosso corpo.
cap.
18
Falou-se
de drama, de história de amor.
A
minha avó era uma mulher de raca-mandaca,
como se diz coloquialmente, na Colômbia, das mulheres que se caracterizam pelo
seu carácter, arrojo e decisão.
só
nos mandavam pegar nas nossas coisas e segui-los
estava
à beira de fazer 40 anos e sendo esta a minha primeira gravidez
ela
já tinha tido três filhos
“Bem
vinda ao clube!”
“Algum
de vocês é o pai?” e eles começaram a responder, uns a seguir aos outros, que
não.
Não
me deram uma única oportunidade para poder confiar nelas, coisa que eu teria
agradecido.
Decidi
não lhes pedir nada.
À
noite, falava baixinho com o meu bebé, tentando pensar nas coisas mais bonitas
que conseguia.
Sua
Majestade já começou a trazer almas boas àquela casa
e
as cinco irmãs que ficaram das que levei comigo
já
vos disse como eram boas
quero
falar da primeira que ali entrou
por
ser coisa que haveis que gostar
sendo
ela de muito pouca idade, sete anos, talvez, uma tia que não tinha filhos
pediu-a
à mãe para tê-la consigo
Levando-a
para casa
deve
ter-lhe dado muitos mimos e mostras de amor,
como
era de razão, e as criadas, que antes de a menina ir para sua casa, deviam ter
alimentado a esperança de vir a herdar a sua fazenda, vendo que se lhe cobrasse
amor, havia de querer deixar tudo à pequena, combinaram afastar a ocasião por
meio dum plano diabólico. E, assim, acusaram a jovem de querer matar a tia,
afirmando que, com esse fim, dera a uma delas não sei quantos maravedis, para
que lhe trouxesse sublimado corrosivo. Disseram-no à tia e, como todas diziam o
mesmo, acreditou, assim como a mãe da pequena que é mulher muito virtuosa.
Esta
leva logo a criança para sua casa, parecendo-lhe que nela se estava criando uma
mulher muito má. Disse-me a Beatriz da Madre de Deus, que assim se chama agora,
que durante mais de um ano a mãe a açoitava e atormentava todos os dias,
fazendo-a dormir no chão, para que lhe confessasse tão grande culpa. A pequena
dizia que não havia feito tal coisa, não sabendo sequer o que era sublimado. E
a pobre mãe afligia-se muito e ainda a julgava pior por vê-la tão teimosa e com
ânimo para o encobrir, parecendo-lhe que nunca se emendaria. Grande coisa foi
não ter a criança acabado por acusar-se, só para se livrar de tantos tormentos;
mas, como estava inocente, deu-lhe Deus a força de dizer sempre a verdade. E,
como Sua Majestade acode pelos que estão sem culpa, deu tão grande mal a duas
daquelas mulheres, que pareciam atacadas de raiva; em segredo, rogaram à tia
que fizesse vir a menina, pedindo-lhe perdão e, vendo-se às portas da morte,
desdisseram-se; outro tanto fez a terceira que morreu de parto.
Quando
chegou à idade de poderem casá-la, mas sendo ainda muito jovem, arranjaram-lhe
os pais um casamento.
mas,
quando lho disseram, declarou o voto que tinha feito de não casar e que de modo
nenhum o faria, ainda que a matassem
como
já tinham dado a palavra e viam o noivo afrontado, açoitaram-na tanto e a
maltrataram a ponto de até mesmo a quererem enforcar, chegando a apertar-lhe o
pescoço; só por acaso não a mataram. Deus, que para mais a queria,
conservou-lhe a vida.
Teresa
de Ahumada
Fundação
de Sevilha, 1575
Clara Rojas
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