Thursday, 24 July 2014

1987, medicina, droga, tempo, 2013, soberania, revolta, liberdade







... grupo religioso que utiliza como principal sacramento
uma antiga mezinha extraída de uma planta denominada ayahuasca, que dizem induzir visões extraordinárias e profundas.

À medida que vamos avançando para sul, a chuva vai-se tornando mais intensa e, sobre as montanhas em volta da cidade, vêem-se os relâmpagos incessantes, seguidos do som cavo e ribombante dos trovões. Trudie e eu afundamo-nos nos assentos, excitados mas um pouco apreensivos, sem sabermos o que nos reservará aquela noite. O condutor segue de olhos postos na estrada à nossa frente. Eu estou atrás dele: tem uns ombros largos e atléticos, encimados por uma cabeça grande e, quando se volta para nós, vejo que tem um rosto inteligente e aquilino, emoldurado por uns óculos de hastes finas e um cabelo castanho desleixado. A sua companheira, uma jovem atraente, com longos cabelos encaracolados e um sorriso brasileiro rasgado, volta-se para nós com uma expressão tranquilizadora e pergunta se estamos bem instalados. Ambos fizemos um aceno mecânico com a cabeça, visivelmente nervosos, mas sem querermos admiti-lo nem um perante o outro, nem perante os nossos anfitriões. 

Deixamos as amplas avenidas da cidade e, à medida que os hotéis de luxo como o Copacabana vão dando lugar ao caos das favelas que brilham como árvores de Natal no meio da escuridão, os candeeiros começam a rarear cada vez mais. Ao fim de pouco tempo, a estrada transforma-se num caminho de terra batida que obriga o condutor a evitar buracos capazes de partir os eixos e cães tristonhos e imóveis, avançando a uma velocidade igual à que teríamos se fôssemos a pé. A chuva parou, mas o vento continua a arrancar pingos das árvores, e o canto das cigarras é tamanho que abafa a música barata de cantina que sai do pequeno rádio do carro. Acabamos por parar numa clareira onde já muitos carros estão estacionados de forma caótica em volta de uma casa grande que, embora simples e de aspecto utilitário, não corresponde ao que eu associaria normalmente com a palavra «igreja» (não tem portas nem janelas). O ambiente é mais de assembleia municipal do que religiosa.

Vêem-se homens e mulheres de todas as idades, incluindo adolescentes e crianças ainda pequenas, assim como os inevitáveis cães, tanto no parque de estacionamento como na igreja, que está iluminada por simples lâmpadas que pendem do tecto. Toda a gente tem vestidas camisas azuis ou verdes, sendo que alguns lhes coseram estrelas douradas. Trata-se obviamente de um uniforme. Os nossos companheiros de viagem tiram os casacos, e vemos que também eles estão de camisa azul. Não estávamos à espera de que estivesse toda a gente de uniforme. É uma coisa que me faz sentir pouco à vontade e que associo à ideia de controlo e uniformidade, algo contrário à liberdade, algo que cheira a seita. Na minha mente surge um título sinistro num jornal: CANTOR E MULHER RAPTADOS NA SELVA POR SEITA RELIGIOSASentir-me-ia mais à vontade se toda aquela gente parecesse pedrada? Talvez não, mas definitivamente os uniformes impressionaram-me mal.

Quando entramos no grande átrio iluminado, somos recebidos com sorrisos calorosos e rasgados e apresentados pelos nossos motoristas ao que parece ser uma amostra de todos os estratos da sociedade brasileira. Muitos deles falam inglês e, depois de algumas palavras de cortesia, pergunto a alguns deles o que fazem e explico que sou cantor e a minha mulher é actriz. 

- Sim, nós sabemos - diz uma mulher. - São muito famosos, mas eu e o meu marido somos professores.

Parecem pessoas absolutamente normais, trabalhadores - há médicos, advogados, bombeiros, um contabilista e a mulher, assistentes sociais, funcionários públicos, programadores de informática, professores; nem um único pedrado. Realmente não sei do que estava à espera, mas aquele enorme grupo de gente hospitaleira faz-me sentir tranquilo.

- É a primeira vez que vão beber o vegetal? - pergunta um médico.

...


Estou no país porque estou prestes a iniciar a minha tournée brasileira e, daqui a alguns dias, irei dar o maior concerto da minha vida. Vão estar duzentas mil pessoas no Estádio do Maracanã no Rio de Janeiro. Será o culminar da minha carreira a solo na América do Sul, mas será também uma espécie de velório. O meu pai morreu há poucos dias, passados poucos meses sobre a morte da minha mãe. Por motivos complexos, não assisti a nenhum dos funerais, nem irei procurar consolação na Igreja. Mas, tal como qualquer pessoa a quem morre um ente querido pode ser atraída pelo consolo da religião, da psicanálise, da auto-reflexão e até das sessões de médiuns, também eu, apesar do meu agnosticismo, estou a precisar de uma experiência ou ritual apaziguador que me ajude a aceitar que talvez exista algo para além da tragédia da morte, um desígnio maior do que consigo alcançar.

Estava a ser difícil para mim chorar a morte dos meus pais.

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«Uma droga dá-te uma recompensa instantânea, uma espécie de gratificação, quer seja um cigarro, álcool, cocaína ou um charro, mas mais tarde vais pagar ou com uma dor de cabeça, uma ressaca ou pior, dependência e habituação. Se fumares muito, morres. Habitualmente, a medicina não dá uma recompensa instantânea. Podemos acabar por nos sentirmos gratificados, mas primeiro temos de pagar. A Ayahuasca é um remédio desse tipo.»

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Começo a ter arrepios, ligeiros a princípio, mas depois cada vez mais fortes. Começam nos pés e sobem pelas pernas, até que todo o meu corpo é sacudido por violentos tremores. É difícil dizer se será uma reacção psicológica por estar com medo ou se estou apenas com frio. Estou suficientemente consciente para não entrar em pânico.

...

Digo em surdina: «Deus nos salve» e, desta vez, não há qualquer ironia na minha frase.


https://www.youtube.com/watch?v=Ln2dwq3vdJE
20.11.1987




24.07.2013

http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/russia/9890866/Environmentalist-Sting-croons-for-Russian-gas-giant.html


http://www.nytimes.com/2014/06/17/world/europe/russia-gazprom-increases-pressure-on-ukraine-in-gas-dispute.html?_r=0


https://www.youtube.com/watch?v=MchWI3sLUQo
Wild Horses

































Hurricane & The Elements


Cuba será independente 
quando tiver desenvolvido todas as suas capacidades,
todas as suas riquezas naturais,
e quando se tiver assegurado, 
por intermédio de acordos comerciais com o Mundo inteiro,
que nenhuma acção unilateral de uma potência qualquer 
a pode impedir de manter o seu ritmo de produção
em todas as fábricas e nos campos,
no quadro da planificação que estamos a montar.
Somente podemos dizer que a soberania política,
que é o primeiro passo,
foi alcançada no dia em que o poder popular triunfou,
no dia da vitória da Revolução,
no dia 1 de Janeiro de 1959.
... é a data da morte do regime despótico 
de Fulgencio Batista, este pequeno Weyler local,
mas também a data de nascimento da verdadeira república
politicamente livre e soberana
que adopta para lei suprema a dignidade do homem.
Este 1 de Janeiro representa o triunfo
de todos os nossos primogénitos mártires
(...)

Che Guevara, 20.03.1960
Radiodifusão »Universidade Popular»


Abandono









sem mistura nasce





 


















































Becoming Jane




Conscience




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