Tuesday, 8 July 2014
Gautier, 1976-2001
A minha mão ficou com vida própria,
com uma esmagadora existência e,
quando abri os olhos,
era uma mão diferente.
Levantei-me,
tirei a saia,
depois as cuecas.
Fui sentar-me de pernas cruzadas junto da vela.
Fiquei a olhar o meu corpo
e não me surpreendeu que ele mostrasse grande serenidade.
Depois de olhar para mim como se fosse a primeira vez,
deitei-me no chão a tocar-me como se ele não existisse.
le veio deitar-se ao meu lado e disse:
«Gostava de te ver mais vezes.»
Foi com este homem que casei.
Ambos com netos e com achaques.
Ele veio viver para casa do meu pai e,
passado dois anos,
eu já considerava os seus temas de conversa tão aborrecidos
que telefonava várias vezes ao dia à minha filha
para falar de detergentes.
No yoga, aprendi a valorizar a respiração que nos mantém vivos;
como as crianças do infantário,
reaprendi a ser mais primária.
É engraçado como todos regressamos ao princípio:
já a Luísa um dia me contara que Freud
(expoente maior da pesquisa do comportamento humano)
terminou a vida
rodeado pelos seus cães
e a regar flores.
Somos todos iguais e se eu o soubesse mais cedo,
não me tinha saturado de acessórios.
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