Chris Rea, 1986
Eu vou para
a alta. A primeira coisa em que reparo é na voz. Tem uma voz que faz lembrar um
saco de papel a ser amarrotado, e quando fala comigo não percebo nada do que
diz. Continuamos reunidos num grande grupo de miúdos no meio de um pedaço de
terreno nu, com embalagens do sumo de laranja que nos deram espalhadas por todo
o lado. A mulher inclina-se para a frente e pega-me na mão, e em seguida
puxa-me atrás dela até uma casa que tem uma porta verde. Sigo-a até um quarto
pequeno e abafado. Consigo distinguir duas camas na penumbra, ambas com lençóis
verdes, e uma cadeira verde no meio.
A mulher
abre as portadas; a luz derrama-se pela tijoleira.
- Então cá
estás tu, Leila – murmura ela, voltando-se para mim. – E já uma menina tão
crescida.
...
- Suponho que
não sabes que idade tens? – diz ela.
Sei, pois.
Tenho quase dez anos. Sei a data em que nasci, porque está nos meus registos. 1
de Junho de 1969. A ama Samia disse-me. Todos os outros miúdos festejam os anos
a 1 de Janeiro. Ninguém escreveu nada a respeito do dia em que nasceram, ou se
escreveram perderam os papéis ou atiraram-nos ao rio, porque não queriam festas
de anos. Pelo menos, é o que dizem. Abro a boca para lhe dizer, mas ela já está
outra vez a falar, dizendo que ali vou aprender a ser uma boa rapariga e – com
a graça de Deus – uma boa mulher. Vou ajudá-la com os meus irmãozinhos. Seremos
como uma mãe e filha a sério. A maior parte das mulheres só gosta de rapazes,
mas ela não, diz. Lampejos dourados brilham-lhe dentro da boca quando fala.
Quando acaba
de falar, mira-me de alto a baixo. Estou a usar o vestido cor de laranja que
usei no casamento da Zulima. A ama Souad disse que era a única coisa decente
que eu tinha e que não ia mandar-me com o uniforme da escola, a parecer uma
prisioneira. Foi à mala que eu tinha preparado e tirou quase todas as roupas,
dizendo que só prestavam para fazer trapos e porque é que eu não a lembrara que
precisava de roupas novas? Encontrou a colher de chá no fundo da mala e disse
que ia pô-la na cozinha, onde era o seu lugar, e eu agarrei-a com as duas mãos
e mordi-a. Ela deixou cair a colher ao chão e saiu porta fora, a gritar que eu
lhe tinha arranjado problemas até ao fim, como a minha irmã antes de mim.
Depois disso, a ama Samia entrou e disse que ia ter saudades minhas quase como
se eu fosse sua filha. A Amal estava escondida na casa de banho, a dizer que
não queria ir. E, de repente, a camioneta estava à nossa espera. Não tive tempo
para me despedir como devia ser de Musa, ou do gato branco, ou das limeiras.
O corpete do
vestido aperta-me debaixo dos braços; puxo-o para os joelhos e apercebo-me de
que a minha nova mãe está a falar comigo.
- Vermelho,
meu Deus – dizia, a abanar a cabeça. – Amanhã podes escolher qualquer coisa
mais adequada.
- Não é
vermelho, Miss. É cor de laranja.
- Trata-me
por mamã – sussurra ela. – Sou a tua mamã Luban. Se Deus quiser, hás-de ser
feliz aqui. Deus quer que todas as crianças sejam felizes.
...
A Ekhlas
está na casa Vermelha, com a mamã Miriam. A mamã Miriam está sempre a limpar, a
varrer, a lavar; a Ekhlas tem de ajudá-la e queixa-se de que mal tem tempo para
rezar as suas orações.
Não é nada
como eu esperava que uma aldeia fosse. Há montes de areia e pilhas de tijolos
partidos por todo o lado. Não há árvores. As casas são todas iguais, só com as
portas e as janelas pintadas de cores diferentes. Não há nenhuma loja, e não há
mesquita.
...
Às
sextas-feiras, depois de termos lavado as nossas roupas de manhã e de os
rapazes terem ido à mesquita, podemos brincar.
...
Por vezes, a
mamã Luban deixa-me brincar no quarto dela. Tem duas camas e uma cadeira onde a
esteira de rezar fica muito bem enrolada quando não está a usá-la. No armário,
guarda as contas de rezar em cima de um pequeno monte de tobes* brancos dobrados, com uma lata de doces escondida por baixo.
Na gaveta de baixo há um tubo de vaselina sem tampa, uma lata de óleo de coco
que tem um grupo de palmeiras pintadas, um pente de plástico, um espelho com
moldura vermelha e um pau com uma ponta serrilhada para limpar os dentes. Tem um
versículo do Corão emoldurado na parede, a dizer que se recebe a recompensa
pela vida que se levou na Terra quando se chega ao Paraíso.
...
Mantém-no
bem alimentado e preguiçoso! Demasiado gordo para procurar outra esposa!
Os conselhos
chovem de todos os lados – da mamã Luban e todas as outras mulheres da aldeia,
da Zulima, da Alawia, das mulheres que fazem a limpeza no escritório e das
minhas futuras cunhadas. Todas têm uma opinião a respeito de como conservar um
homem, e o dinheiro dele. Todas estão mais interessadas em mim agora do que
alguma vez estiveram.
*tobe – pano
vaporoso com 3m de comprimento que as mulheres sudanesas casadas enrolam à
volta do corpo, dos pés à cabeça, para aparecer em público.
Wendy Wallace
Daughter of Dust
2009
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