Tuesday, 15 July 2014

cuidar






não foi por gostar de crianças que quis muito ser mãe
eu gostava de cuidar
era nisso que me sentia feliz, me sentia completa
estar próxima do outro que quer uma presença atenta
e poder ser essa presença atenta
poder usar a minha capacidade de aceitar todas as pessoas
aprender com elas por sentir que elas precisavam de mim
e reconheciam a minha própria presença

contudo
estar com crianças só era possível para mim à distância
pois eu não compreendia a sua maneira de ser
não compreendia o que queriam
e por isso nunca quis educar crianças - filhas de outros
sentia, porém, que ser mãe era cuidar de uma determinada
pessoa - que eu podia conhecer de perto
para a guiar no ser - não no fazer, não no "produzir"

o sentimento de adorar todas as crianças que via
começou no dia em que a Teresa nasceu
o sentimento de que eu era capaz de educar qualquer criança
- sendo mãe dela ou não

educar não é dar indicações de como ser 
só eu posso escolher como eu posso ser
educar tem mais a ver com eu-ser-eu em relação a tu-seres-tu

o que é mais difícil em eu-ser-eu na relação com a criança
é o medo de a maltratar - ser intrusiva
ou o medo de a deixar sozinha - ser abandónica 

acho que é mais fácil educar quando vejo a Teresa contente
isso significa que ela tem gosto na sua existência
e que não é preciso muito esforço meu para que isso aconteça
é muito difícil educar quando ela mente ou finge ou quando não entendo o que ela diz
porque deixo de perceber o que ela precisa
e não consigo relacionar-me com uma personagem que ela inventa, mas que está a pedir que eu lhe dê atenção
ou não mentiria - ficava calada

a intuição é o que mais me ajuda 
a decidir
para ter consciência do que está a acontecer em cada momento
e das consequências das nossas decisões

formar o outro também nos forma a nós
de facto
eu formo do modo como quero ser formada
com presença inteligência e independência
sem mentiras irresponsabilidade intermitências 
e sem superficialidade










No comments:

Post a Comment