um anjinho
A 25 de Abril pensámos que éramos um país que se ia reconciliar consigo próprio e que se ia reconhecer. Acreditámos na transparência possível. Acreditámos que a lei da negatividade iria ser ultrapassada. A continuada ausência de Jorge de Sena também nos diz que algo não correu inteiramente bem.
Pode parecer que estou a misturar indevidamente poesia e vida.
Mas nenhum poeta escreve para fazer uma obra e nenhum poeta escreve para conquistar uma vida imortal, mas sim para conquistar a inteireza e a verdade da sua vida actual.
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A poesia não inventa outro mundo. Mas procura a verdadeira vida. E por isso Jorge de Sena definiu a poesia como sendo "a fidelidade integral à responsabilidade de estar no mundo".
Por isso a sua poesia é uma poesia de resistência não apenas no sentido corrente e directamente político da palavra, mas uma poesia que resiste a tudo quanto deforma ou inverte ou desfigura a vida humana. E a beleza desta poesia está na veemência e na fúria que é posta nesta resistência. Na veemência, na fúria e na soberba que é posta no arremeter contra tudo quanto tenta afogar o emergir humano. Na obstinada paixão que é posta no combate pela realeza devida a cada homem.
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seria preciso saber que não há palavras que cheguem onde não há conversa
onde o silêncio é um vai-vem de moscas sobre um prato servido
em setembro de 1976
O Cinatti fez muita troça de mim porque eu chorei na partida da Mécia e das crianças.
Para ela e para si mil e mil saudades
Sophia
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