A vida do Egipto é o Nilo:
sem o Nilo, o Egipto seria apenas
a continuação do deserto líbico,
até ao mar Vermelho.
Assim, é o país mais fecundo
em que ao homem foi dado semear.
O Egipto é o vale do Nilo.
É um traço de vegetação, de vida,
de frescura, através da infinita lividez do deserto.
Evidentemente, ali houve outrora um grande mar:
cavando-se a terra, mesmo no Delta,
mesmo nos lugares onde é maior a abundância de culturas,
encontra-se uma camada de terra vegetal,
e debaixo daquela camada,
um depósito de areia do mar,
de uma profundidade indeterminada,
que provavelmente vai pousar na rocha.
Remotamente, talvez se estendesse ali
a planície lívida de Ceres,
solidões pedregosas que iam até ao mar Vermelho,
desde o deserto de areia do Sara.
Depois, o Nilo desceu das suas origens misteriosas
- que hoje parecem ser os lagos da Abissínia
- e por onde passou, criou a vida.
Aqueles que nunca saíram das ruas direitas e monótonas
das cidades da Europa,
não podem conceber a colorida e luminosa originalidade
das cidades do Oriente.
Aí, as ruas são direitas,
ladeadas de largas fachadas, caiadas,
inexpressivas como rostos idiotas.
As figuras são triviais:
as fisionomias vulgares, esbatidas,
uniformizadas pelo tédio e as dificuldades da vida;
os vestuários são escuros, estreitos, económicos.
O gás, à noite, perfila a sua linha bocejante;
o rodar das carruagens e das carroças
abala o chão com uma brutalidade ruidosa.
Tudo é correcto, alinhado, perfilado, medido e policiado.
É decerto excelente para a segurança, para a justiça,
para a propriedade, para a ordem:
é mesmo indispensável.
A algibeira aplaude;
a epiderme, protegida, dilata-se de alegria;
o espírito de lucro, garantido e patrulhado,
desenvolve-se com segurança,
e as gavetas podem bocejar sem risco.
Tudo está contente no animal policiado
- excepto a imaginação.
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