Saturday, 19 July 2014

you can never hold back spring




Na «união total» ou «matrimónio espiritual» a «transformação» não fica já confinada na vontade, mas estende-se em certo modo a todas as faculdades humanas sobre as quais a vontade pode exercer o seu domínio; e isto precisamente porque doravante todas elas, incluindo a sensibilidade, obedecem sem recalcitrar. Assim a alma sente-se inteiramente sob a acção divina e repete de bom grado com S. Paulo: «Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, é Deus que vive em mim». A alma tem em si um sentimento permanente da presença divina vivificante; sente Deus que a mantém «abraçada» no fundo da sua vontade, e deste abraço nasce a moção divina que a guia em tudo quanto faz.
Em certos momentos esta invasão da vida divina, que nela passou a ser habitual, torna-se ainda mais intensa: a alma não se sente somente abraçada por Deus no fundo do seu ser, sente-se divinamente arrastada a um conhecimento sublime dos atributos de Deus e na corrente do amor divino. Nestes momentos a alma experimenta como que uma espécie de participação da vida trinitária.
Estas contemplações sublimes em que a luz e o amor rivalizam, são verdadeiros assaltos que o amor divino misericordioso lança à alma, e um dia o assalto será tão violento que quebrará o invólucro frágil da vida mortal e «arrebatará a jóia da alma» por uma «morte de amor».

«Ó almas criadas para estas grandezas 
e chamadas a estas sublimidades,
 que fazeis, por onde divagais»? 
exclama o Santo, lamentando a nossa inconsideração 
e queixando-se da nossa pouca generosidade. 
Porque, se tão poucos são os que chegam à união, 
não é porque Deus queira
 que haja poucos destes espíritos alevantados,
 quereria antes que todos fossem perfeitos;
 mas encontra poucas pessoas
 que suportem uma acção tão elevada e sublime 

(Chama Viva, II, 27)



Roma, 16 de Dezembro de 1946
P. Gabriel de Sta. Maria Madalena, ocd
Obras Completas do Doutor Místico São João da Cruz






















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