Na «união total» ou «matrimónio
espiritual» a «transformação» não fica já confinada na vontade, mas estende-se
em certo modo a todas as faculdades humanas sobre as quais a vontade pode
exercer o seu domínio; e isto precisamente porque doravante todas elas,
incluindo a sensibilidade, obedecem sem recalcitrar. Assim a alma sente-se
inteiramente sob a acção divina e repete de bom grado com S. Paulo: «Eu vivo,
mas já não sou eu que vivo, é Deus que vive em mim». A alma tem em si um
sentimento permanente da presença divina vivificante; sente Deus que a mantém
«abraçada» no fundo da sua vontade, e deste abraço nasce a moção divina que a
guia em tudo quanto faz.
Em certos momentos esta invasão da vida
divina, que nela passou a ser habitual, torna-se ainda mais intensa: a alma não
se sente somente abraçada por Deus no fundo do seu ser, sente-se divinamente arrastada a um
conhecimento sublime dos atributos de Deus e na corrente do amor divino. Nestes
momentos a alma experimenta como que uma espécie de participação da vida
trinitária.
Estas contemplações sublimes em que a
luz e o amor rivalizam, são verdadeiros assaltos que o amor divino
misericordioso lança à alma, e um dia o assalto será tão violento que quebrará
o invólucro frágil da vida mortal e «arrebatará a jóia da alma» por uma «morte
de amor».
«Ó almas criadas para estas grandezas
e
chamadas a estas sublimidades,
que fazeis, por onde divagais»?
exclama o Santo,
lamentando a nossa inconsideração
e queixando-se da nossa pouca generosidade.
Porque, se tão poucos são os que chegam à união,
não é porque Deus queira
que
haja poucos destes espíritos alevantados,
quereria antes que todos fossem
perfeitos;
mas encontra poucas pessoas
que suportem uma acção tão elevada e
sublime
(Chama Viva, II, 27)
Roma, 16 de Dezembro de 1946
P. Gabriel de Sta. Maria Madalena, ocd
Obras Completas do Doutor Místico São
João da Cruz
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